Branca
Ainda sinto o peso do olhar do André quando saímos do quarto, como se aquele silêncio que ficou entre nós dissesse muito mais do que qualquer palavra que poderia ter sido dita ali dentro. Não é só pelo que aconteceu. É pelo que ainda pode acontecer, pelo que todos nós sabemos que ainda está em movimento, mesmo quando ninguém está falando sobre isso.
Assim que atravesso a porta, vejo a Laís se levantar quase no mesmo instante, ela ficou na recepção enquanto estávamos ali.
"Já vão?"
"Sim, é com você que ele quer ficar, não com a gente", ela sorri de lado, concordando.
Seguro o braço dela antes que ela volte para dentro do quarto.
"Depois eu te ligo… a gente precisa conversar."
Ela me encara por um segundo a mais, e não pergunta o porquê. Não precisa. A forma como digo já entrega que não é uma conversa qualquer.
"Tá bom", ela responde, mais séria agora. "Obrigada… por estar com ele. E por estar aqui por mim."
Faço um leve aceno, sentindo o cansaço pesar nos ombros de um jeito que não é só físico.
"Vou pra casa ficar com a Aelyn enquanto o Cássio tenta descobrir alguma coisa."
"Obrigada", ela repete, dessa vez mais baixo.
Nos despedimos rápido, porque nenhuma de nós tem energia para prolongar aquilo. E porque, no fundo, existe um entendimento silencioso de que isso ainda está longe de acabar.
O silêncio dentro do carro não é desconfortável, mas também não é leve. Ele ocupa espaço, se espalha, como se cada pensamento nosso estivesse grande demais para caber só dentro da cabeça.
"Sabe que eu não me importo de levar sua mãe pra nossa casa", Cássio diz depois de alguns minutos, mantendo os olhos na estrada. "Só não me peça pra ser gentil com ela… uma vez que ela é… você sabe."
O suspiro escapa de mim quase junto com um riso curto, cansado, daqueles que vêm mais do absurdo da situação do que de qualquer humor real. Seguro a mão dele, entrelaçando nossos dedos, precisando daquele contato mais do que gostaria de admitir.
"Eu sei", respondo, porque sei mesmo. "Ela não é fácil… e tá tornando tudo ainda mais difícil."
Por um momento, penso no hospital, na forma como tudo aconteceu, na forma como eu a coloquei para fora, na expressão dela, no peso daquela ruptura que já vinha sendo construída há muito tempo, mas que agora parece ter chegado em um ponto sem volta.
"Eu vou conversar com ela", continuo, mais baixo. "Se ela me atender… porque depois do que eu fiz no hospital… é capaz dela me deserdar."
Dessa vez, a risada vem mais solta, e Cássio acompanha, e por alguns segundos existe uma sensação estranha de normalidade, como se a nossa vida não estivesse prestes a explodir em várias direções ao mesmo tempo.
Mas passa rápido.
Assim que entramos em casa, mal tenho tempo de fechar a porta antes de ouvir os passos rápidos vindo na nossa direção.
"A mamãe chegou!"
Aelyn surge como um pequeno furacão, e eu me abaixo automaticamente, abrindo os braços a tempo de recebê-la quando ela praticamente se j**a em mim. O impacto me arranca um riso genuíno, daqueles que aliviam um pouco do peso que eu estava carregando até então.
"Oi, meu amor…"
Passo a mão pelos cabelos dela, respirando aquele cheiro que sempre me acalma mais do que qualquer outra coisa no mundo. Me afasto só o suficiente para olhar para ela, para ter certeza de que ela está bem, de que ela continua sendo esse pedacinho intacto da nossa vida.
"Tudo isso era saudade?"
Ela faz que sim com a cabeça, os olhos brilhando, completamente sincera.
"Vocês demoraram muito. Onde vocês estavam?"
Por um segundo, eu travo. Não pelo que vou dizer, mas pelo que não posso dizer.
"O tio André ficou dodói… a gente foi visitar ele."
A forma como ele fala, a tensão no maxilar, deixa claro que isso não é só uma opinião. É uma decisão.
"Para de pensar bobagem", ele continua, segurando meu rosto com uma das mãos, me obrigando a sustentar o olhar dele. "Foca no que importa. Cuida da nossa pequena."
Meu peito aperta, porque é exatamente isso que mais me assusta: não ser suficiente para proteger ela de tudo isso. Assim como não fui para o Pedro.
"Ah… e eu marquei o médico pra você. Pra amanhã."
Eu pisco, surpresa, tentando encaixar aquilo no meio do caos em que a gente está vivendo.
"Você quer mesmo tentar ter outro filho… nessa bagunça que tá a nossa vida?"
A pergunta sai mais frágil do que eu gostaria, carregada de um medo que eu não consigo disfarçar completamente.
Ele não hesita. Me puxa de volta, firme, como se estivesse me ancorando ali.
"Eu não vou parar nossa vida por causa dos outros."
O olhar dele prende o meu de um jeito intenso, decidido, quase teimoso.
"Se tiver alguma outra objeção, eu posso até considerar. Mas parar por causa desses desgraçados… nem pensar."
O beijo que vem em seguida não é só carinho. É escolha. É enfrentamento. É a forma dele dizer, sem palavras, que a gente não vai viver em função do medo.
E, por um instante, eu quero acreditar nisso com tudo que tenho.
Fico parada na sala por alguns segundos depois que ele sai, ouvindo o som distante da Aelyn no quarto, provavelmente já espalhando lápis e papéis pelo chão, enquanto Cássio vai enfrentar o mundo do lado de fora.
"Como eu posso ajudar sem atrapalhar?" minha mente começa a pensar em tudo que sei sobre Jonathan e Emily, e corro para o quarto de Aelyn, eu preciso de lápis e papel.

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