Emily
Eu estou parada do outro lado da rua há mais tempo do que deveria.
Tempo suficiente para qualquer pessoa normal achar estranho. Tempo suficiente para que alguém mais atento percebesse que aquilo não é coincidência, que não é acaso, que não é só uma mulher esperando alguma coisa.
Mas ninguém presta atenção em mim.
E é exatamente assim que eu gosto.
Desde que eles saíram do hospital, eu venho seguindo seus passos. Passei horas dentro do carro há algumas quadras da casa deles, e então, hoje cedo quando eles saíram, eu os segui.
Os vidros da clínica refletem a movimentação da rua, mas não escondem o suficiente. Eu vejo quando eles chegam. Vejo quando descem do carro juntos, próximos demais, confortáveis demais, como se o mundo ao redor não estivesse desmoronando em pedaços.
Como se nada pudesse tocá-los. Meu maxilar tensiona sem que eu perceba.
Branca está linda.
É irritante o quanto ela continua linda mesmo depois de tudo, mesmo depois de ter tido a vida destruida. Ela conseguiu sobreviver..
Cássio encosta a mão nas costas dela enquanto entram, um gesto pequeno, quase automático, mas que diz muito mais do que deveria. Intimidade. Pertencimento.
Algo que não deveria ser dele.
Eu observo até que a porta se fecha atrás dos dois, e só então atravesso a rua, ajustando a bolsa no ombro como se estivesse ali por um motivo completamente comum.
Por fora, eu sei exatamente o que pareço. Por dentro… eu estou contando cada passo. Olho para o vidro e vejo quando eles já entraram na sala do médico e a recepção fica vazia.
A clínica é clara, silenciosa, organizada demais. O tipo de lugar onde as pessoas entram com esperança e saem com respostas que mudam tudo.
Eu caminho até o balcão com a expressão certa. Nem ansiosa demais, nem calma demais.
"Bom dia", digo, apoiando levemente os dedos no mármore. "Eu tinha uma dúvida sobre um atendimento…"
A recepcionista me olha, profissional, distante.
E eu sorrio.
Não é um sorriso grande. Não é simpático demais. É o suficiente.
O suficiente para abrir uma fresta. Minutos depois, a conversa já não é mais sobre dúvidas. O envelope muda de mãos com discrição. E, com ele… a informação.
Eu saio da clínica com o coração batendo mais rápido do que deveria. Eles não foram ali para fazer um check-up, foram para tentar ter outro filho. Meu Deus, como eles podem pensar nisso.
O relacionamento deles é tão sério assim? Jonathan vai surtar.
Um riso curto escapa, sem humor nenhum. Isso… eu preciso ver de perto.
Volto para o meu carro e dirijo em direção à mansão do Krieger. A governanta abre a porta e espero até que ele venha a meu encontro.
Jonathan não demora a me receber.
Ele está no escritório quando entro, o ambiente escuro demais para o horário, como se a luz ali dentro fosse opcional. Como se ele preferisse operar na sombra.
"Você disse que era importante", ele fala, sem levantar imediatamente o olhar dos papéis sobre a mesa. Eu fecho a porta atrás de mim.
"E é."
Isso faz com que ele me encare. E há algo naquele olhar que sempre me incomodou, mesmo antes de tudo. Algo que nunca foi completamente controlado. Algo que sempre esteve à beira de sair do lugar.
"Fala de uma vez, Emily, eu estou ocupado."
"Eu segui eles hoje." O silêncio muda de peso na mesma hora.
"Seguiu quem?"
O olhar dele passa por mim rapidamente, avaliando, entendendo mais do que eu gostaria.
Depois volta para o neto.
"Não existe mais você e a Branca. Sua chance já foi. Eu já me humilhei o suficiente tentando trazer aquela mulher de volta para essa família. Ela não quer. Abriu mão de ser uma Krieger. Pare de se humilhar também. Você está arrastando o nome da família na lama."
Cada palavra cai como uma sentença.
Jonathan não se mexe. Não fala. Só… escuta.
"Você perdeu", Victor finaliza, sem suavizar nada. "E tudo que eu tenho agora vai ser apenas da Ana."
Aquilo sim o acerta, e vejo quando qualquer coisa que estava contida ali, explode.
Victor se vira, abre a porta e sai sem esperar resposta, deixando um rastro de tensão que parece se infiltrar nas paredes.
O silêncio que fica depois é pior do que qualquer grito. Jonathan não olha para mim imediatamente. Ele fica parado por alguns segundos, respirando devagar. Organizando ou tentando organizar o que acabou de acontecer.
Quando finalmente se vira… eu entendo.
"Você sabia disso antes de vir aqui?"
"Do que? Do seu avô? Não... eu só vim te trazer a informação, como combinamos."
"Mentira! Você sabia que ele estaria em casa. Sabia que ele entraria assim que você me falasse." ele se aproxima me segurando com força pelos cabelos. "Você está se vendendo para o meu avô agora, Emily?"
"Não, Jonathan, não... eu... me solta você está me machucando?" mas ele não solta, ele quer ter certeza de que não estou mentindo.
"Você vai fazer exatamente o que eu mandar, está ouvindo? Você tem um mês para me ajudar a trazer a Branca de volta, se não quem vai encontrar o caixão será você." ele me solta com brusquidão e caio no chão o olhando apavorada.
Aquele era um Jonathan que eu não conhecia, e naquele momento eu tinha certeza que tinha vendido a minha alma para o diabo.

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