Branca
"Cadê o espumante? Isso merece uma comemoração." A voz do André vem carregada de um entusiasmo que eu não via nele há dias, e aquilo por si só já aquece alguma coisa dentro de mim.
Eu rio, ainda meio perdida entre tudo que aconteceu nas últimas horas.
"Eu vou pegar as taças."
Dou um passo para sair, mas minha mãe se adianta.
"Eu vou com você."
O simples fato de ela se oferecer me faz olhar para ela por um segundo a mais do que o normal. Não é um grande gesto. Não é uma reconciliação declarada. Mas… é alguma coisa.
Seguimos juntas até a cozinha, e o cheiro me atinge antes mesmo de cruzarmos a porta.
Comida de verdade. Tamara e suas mãos de fada.
Ela está terminando o almoço, concentrada, mas levanta o olhar no instante em que entramos.
"Eu ouvi uma comemoração ou foi impressão minha?"
O sorriso dela já entrega que ela ouviu perfeitamente.
Eu não consigo segurar o meu.
"Siim, eu to grávida!"
Ela larga o que está fazendo sem pensar duas vezes e vem até mim, me puxando para um abraço apertado, daqueles que confortam de verdade.
"Eu tô muito feliz por você. Você merece demais toda a felicidade do mundo."
Fecho os olhos por um segundo, recebendo aquilo sem resistência.
"Obrigada."
Ela se afasta, ainda sorrindo, e já começa a ajudar a tirar as taças do armário junto comigo e com a minha mãe.
"Tem suco de uva e de laranja", ela comenta, prática como sempre. "Qual você prefere?"
Eu solto uma risada leve.
"Laranja pra mim e pra Aelyn."
Minha mão vai automaticamente até a barriga.
"E pra Serena também."
Minha mãe observa o gesto. Silenciosa por um instante. Depois solta, quase como quem não queria deixar escapar:
"Pelo visto esse homem te faz mesmo feliz."
Eu paro por um segundo, pensando em como minha vida mudou depois dele.
"E como faz", respondo, sem hesitar. "Muito."
O olhar dela fica mais atento agora.
Mais… presente.
"Eu nunca senti isso com o Jonathan", continuo, com mais calma. "Com o Cássio é diferente. Ele cuida de tudo… mas não me prende. Ele me protege… mas não me tira do lugar. Ele…"
Eu respiro, procurando a palavra certa.
"Ele me entende."
Tamara sorri de lado, como se já soubesse.
"Ele te completa."
"Completa", respondo, sentindo aquilo com mais força do que nunca. "É por isso que eu amo ele."
As duas trocam um olhar rápido. E então minha mãe solta um pequeno suspiro, cruzando os braços.
"Eu vou tentar tolerar a presença dele", diz, como se estivesse fazendo uma concessão enorme. "Mas não me peça pra ser passiva. Aquele homem me tira do sério."
Eu arqueio a sobrancelha.
"E a senhora também nos tira."
Tamara segura o riso.
Minha mãe me encara por um segundo. E então… quase sorri.
"Então estamos quites."
Mas ele não para.
"E eu escolheria você de novo", ele diz, mais baixo agora. "Todas as vezes." Seguro as lágrimas, porque sim, eu vou chorar se ele continuar falando assim.
Ele leva a mão ao bolso. E, por um segundo, tudo desacelera.
Quando ele tira a pequena caixa… ninguém fala nada. Ninguém se move.
Ele abre, ali, na minha frente.
"E agora… na frente de todos que importam pra gente…" Os olhos dele prendem os meus, sem espaço pra dúvida. "Você quer casar comigo?"
O ar some dos meus pulmões. Meu coração dispara de um jeito que eu não consigo controlar. Minha mente tenta acompanhar… mas é tarde.
Porque não é racional.
Eu olho para ele. Depois para Aelyn. Depois para minha mãe. Para André.
Para tudo que a gente passou. Para tudo que a gente construiu. E para tudo que ainda vem.
As lágrimas escorrem antes mesmo da resposta.
Mas eu sorrio.
"Sim! Mil vezes, sim!"
As palavras saem emocionadas.
Cássio solta o ar como se estivesse segurando desde o começo do mundo, pega minha mão e desliza o anel no meu dedo com um cuidado quase reverente. E então me puxa para um beijo que não é só beijo.
É promessa.
É escolha.
É começo.
Ao nosso redor, a comemoração explode.
Mas, ali… no meio de tudo… eu só consigo pensar em uma coisa.
Talvez… dessa vez… a gente esteja exatamente onde deveria estar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz