Ana
O escritório do meu avô sempre teve o mesmo cheiro. Madeira antiga, papel e controle. Nada ali é por acaso, nem os quadros, nem os móveis, nem as pessoas que entram… e muito menos as que saem.
"Você demorou."
A voz dele não é alta, mas carrega o peso de quem não está acostumado a esperar. Eu fecho a porta atrás de mim com calma, mantendo a postura impecável.
"Estava resolvendo algumas coisas pro, senhor. Nada que precise se preocupar."
Ele não insiste. Nunca insiste quando não o interessa de verdade.
"Jonathan perdeu completamente o controle."
Eu me aproximo devagar, observando cada detalhe da expressão dele, absorvendo o que não é dito com a mesma atenção que dou às palavras.
"Eu disse que aconteceria."
"Obcecado. Irracional. Perigoso." Ele passa a mão pelo rosto, visivelmente incomodado. "E tudo por causa da Branca. Aquele moleque não tem mais jeito. Meu único neto homem, é uma decepção."
Inclino levemente a cabeça, como se aquilo ainda fosse uma possibilidade e não uma certeza.
"Ele nunca soube separar o controle da loucura. Ele não aguentaria o que o senhor suportou a vida toda."
"Acho que ele enlouqueceu de verdade", ele corta, mais duro. "Eu estou considerando interná-lo."
Essa informação se acomoda dentro de mim com precisão. Não demonstro nada além de uma concordância ponderada.
"Acho prudente. Antes que ele faça algo que não tenha volta. Ser preso já envergonhou demais a imagem do senhor."
Ele me observa por alguns segundos, avaliando como sempre faz, como se ainda estivesse medindo até onde pode confiar em mim. Eu sustento o olhar sem vacilar.
"Ele tem que entender que ela virou as costas para a família", ele continua, mais frio. "E eu não vou correr atrás de trazê-la de volta. Se ela não quer contato, nós também não."
Faço um leve aceno, alinhando-me à decisão dele.
"A Branca fez a escolha dela."
"Exatamente." Ele se recosta na cadeira. "E nós temos você."
Dessa vez, eu sorrio. Pequeno, não posso demonstrar tudo que sinto agora.
"Eu vou procurar os melhores tratamentos para o Jonathan", digo com calma. "Se for necessário, clínicas especializadas… o que for preciso. Tudo para que o senhor fique tranquilo, e não se estresse com essas pequenas coisas."
Ele assente, satisfeito.
"Eu sabia que podia contar com você, minha Ana. A única lúcida dessa família."
Claro que podia. Sempre pôde.
"Faça o que for necessário para que seu irmão não nos desonre ainda mais. Por mais traíra que Branca seja, ela não nos humilhou. Não colocou um holofote em sua cabeça. Jonathan é o contrário. Moleque idiota." ele bufa, batendo a mão na mesa.
"Vou agora mesmo resolver isso, vovô, não se preocupe."
Saio do escritório com a mesma tranquilidade com que entrei, os passos firmes, a respiração estável, como se nada ali tivesse peso real. A porta se fecha atrás de mim com um clique baixo, e só então deixo o sorriso crescer um pouco mais, o suficiente para sentir, não para mostrar.
O carro já está à minha espera, o motorista desce imediatamente para abrir a porta. Entro sem pressa, ajeitando o casaco antes de encostar no banco.
O silêncio que se forma não é desconfortável, é apenas mais uma peça se encaixando no lugar certo. Eu deixo meus dedos deslizarem pelo braço do banco, tranquila.
"Às vezes… intensidade é necessária para garantir o resultado."
Ele me olha rapidamente pelo espelho, cauteloso, como se medisse até onde pode ir.
"Eu só segui as instruções."
Sustento o olhar dele por um segundo, o suficiente para lembrar exatamente qual é o lugar de cada um naquela equação.
"E foi muito bem recompensado por isso", respondo, no mesmo tom controlado. "Não seja hipócrita."
Ele engole seco, assentindo, e volta a atenção para a estrada. O carro segue, e o local desaparece aos poucos no retrovisor, como tudo que já cumpriu sua função.
Apoio a cabeça no encosto, fechando os olhos por um instante enquanto organizo cada peça com precisão. Sem Branca. Sem bisneto. E, em breve… sem Jonathan.
Um suspiro leve escapa, não de alívio, mas de satisfação.
Quando abro os olhos, meu reflexo no vidro me encara de volta, intacto, controlado, exatamente como deve ser.
No fim… tudo está acontecendo exatamente como eu planejei.
E quando terminar… só vai restar uma pessoa no topo.
Eu.
A única herdeira Krieger.

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