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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 204

Laís

O caminho até o quarto parece mais longo do que realmente é, talvez porque eu esteja prestando atenção em cada passo que ele dá. André tenta disfarçar, mas o peso do corpo ainda puxa de um lado mais do que deveria, e cada movimento carrega um esforço que ele não admite.

"Devagar", digo, mantendo o braço firme ao redor dele.

"Eu estou devagar", ele rebate, com aquele tom que tenta parecer irritado, mas que já conheço bem demais para saber que é só orgulho ferido.

Eu quase sorrio.

A gente chega ao quarto hospital, e eu ajudo ele a sentar na cama com cuidado, observando cada reação, cada contração leve no rosto que ele tenta esconder.

"Deveria estar no hospital ainda..." reclamo. "E ainda bebeu duas taças de champagne. E se isso cortar a medicação, André?" ele ri.

"Não vai. E não, se eu estivesse no hospital, não ia estar comemorando a chegada da nossa sobrinha. Então fiz a melhor escolha." bufo.

"Você é teimoso demais."

"Viu só? Sobrevivi", ele fala assim que se deita na cama, fazendo caretas para esconder a dor.

"Ainda não sabemos das possíveis complicações por esse excesso de esforço", respondo, ajeitando o travesseiro atrás das costas dele. "Você ainda está todo remendado."

Ele ri baixo, apoiando a cabeça por um segundo, como se finalmente permitisse ao próprio corpo descansar.

"Não se preocupa, tá? Eu to bem." Olho para aqueles olhos verdes que eu tanto amo e tento me convencer disso.

Antes que eu responda, a porta de vidro do quarto se abre sem aviso. Estávamos tão imersos que não percebemos a mãe de André se aproximar.

"Está confortável?"

"Estou", ele responde, simples.

Ela observa mais um instante, como se quisesse dizer alguma coisa, mas não diz. Só faz um aceno breve e sai, deixando o silêncio no lugar dela.

Eu acompanho a saída com o olhar por um segundo, depois volto para ele.

"Por que ela tem que ser assim?" ele pergunta, mais pra ele do que pra mim.

"Você tem a quem puxar. Cabeça dura igual", respondo, sincera.

"Eu não...", ele diz, com um meio sorriso.

"Claro que não..." sorrio, mas vejo a dor no fundo dos olhos dele. Ele espera a aceitação da mãe, mas ao mesmo tempo, espera ser forte para ela.

Sento-me na cama auxiliar, mais baixa, de frente para ele, apoiando as mãos no colchão enquanto observo o rosto dele com mais calma agora.

Se alguém me dissesse, meses atrás, que a gente estaria assim…

"Se me falassem há alguns meses que tudo isso ia acontecer, eu não acreditaria."

Ele solta um riso leve, balançando a cabeça.

"Nem eu."

O silêncio que se segue não é estranho. É cheio.

Como se tudo que a gente viveu ainda estivesse ali, mas sem pesar como antes.

"Olha a Branca…", continuo, mais baixo. "Tudo que ela passou… tudo que tiraram dela…" Minha garganta aperta um pouco. "E agora parece que estão devolvendo. Não do jeito que ela imaginou… mas ainda assim… é dela."

Ele me observa em silêncio por um segundo antes de estender a mão.

Entrelaça os dedos nos meus.

"Do mesmo jeito que com a gente."

Eu seguro mais firme, sentindo o calor da mão dele como uma âncora.

"Entenda uma coisa, Laís", ele diz, baixo, firme. "Você é a minha prioridade." Meu peito aperta. "Em qualquer situação… eu vou te proteger."

O olhar dele prende o meu.

"Eu sempre vou escolher você."

Eu não estou preparada para isso. Nunca estive. Porque nunca foi assim antes. Porque ninguém nunca me colocou nesse lugar.

Eu me levanto quase sem perceber, encurtando a distância entre nós, levando a mão livre até o rosto dele.

"Para…", murmuro, com um sorriso que não consigo conter. "Para de fazer isso."

Ele franze levemente a testa.

"Isso o quê?"

"Me fazer me apaixonar por você todo dia."

E então eu o beijo.

Com cuidado primeiro, por causa dos pontos, da dor, do medo ainda recente.

Mas mesmo assim… com tudo que eu tenho.

Porque, pela primeira vez em muito tempo… eu não estou fugindo.

Eu estou ficando.

E isso… assusta.

Mas também é a melhor sensação que eu já tive.

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