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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 218

Laís

O silêncio depois da ligação não chega a se instalar de verdade. Ele tenta existir… mas não consegue. Porque, no segundo seguinte, tudo vira movimento. Eu já estou puxando os papéis, organizando as anotações, caminhando em direção ao quarto para arrumar as malas, como se cada segundo perdido pudesse custar algo que a gente ainda nem entende. André faz o mesmo, limitado pelos movimentos, mas tomado por uma urgência que não aceita pausa, não aceita espera, não aceita mais nada além de ir.

A gente não precisa dizer uma palavra.

A decisão já foi tomada.

"Pra onde vocês pensam que vão?" A voz do Cássio corta tudo antes que a gente consiga avançar mais dois passos. Levanto o olhar e o encontro parado na entrada do corredor, braços cruzados, olhar atento demais.

"Pra Beacon", respondo direto. "A gente falou com o orfanato. Existe uma chance real de que ele esteja lá." O olhar dele muda. Não de surpresa. De alerta.

"Chance real… ou armadilha daquela víbora?"

O André solta um ar pesado ao meu lado.

"Cássio..."

"Não, escuta", ele interrompe, firme. "Isso tá fácil demais. Dez anos, André. Dez anos e do nada aparece uma pista limpa assim?" Eu entendo o ponto dele. Mas não muda nada.

"A gente não pode ignorar isso", respondo, mantendo a calma. "Mesmo que exista risco, existe também a possibilidade de ser ele."

"E não vou esperar mais nenhum segundo", André entra, a voz mais firme. "A gente vai direto na Vara da Infância. Dá entrada no pedido formal, pede autorização, DNA… e descobre se é ele ou não." Cássio balança a cabeça, ainda desconfiado.

"Tá fácil demais", repete, mais baixo. "Uma criança deixada há dez anos… e ninguém adotou?"

O silêncio pesa por um segundo. E então falo, mais baixa, mas clara.

"Talvez a gente saiba o motivo." Os dois olham pra mim.

"Se for o garoto que a diretora do orfanato falou. Ele é especial. Teve uma doença na infância que não teve o atendimento correto por falta de recursos." O impacto é imediato. André range os dentes. Cássio respira mais fundo. E o clima muda.

"Isso é o que mais me deixa puto. Meu filho sofrendo por escolhas daquela desgraçada..." A voz do André vem firme. Dura. Mais do que antes.

Branca e Vânia aparecem na entrada da sala, atraídas pelo movimento e pelo peso que tomou conta do lugar.

"O que está acontecendo?", Branca pergunta, já tensa. André se vira pra elas.

"A gente pode ter encontrado ele." O silêncio que vem depois disso é quase palpável.

"Vão logo..." Cássio abre caminho, e corro para o quarto arrumando tudo e jogando tudo que vamos precisar dentro das malas.

André continua conversando com sua irmã e sua mãe que estão tão abaladas quanto ele, e eu... eu nem sei o que sentir.

Se Felipe for mesmo o filho do André, eles vão ter que aprender a lidar com tudo. Vão ter que ir para um lugar mais seguro para ele. Ir para acomodações especiais para que ele não se machuque até se adaptar.

Saio do quarto puxando as malas até a entrada da casa, e Cássio as pega, levando-as para o carro.

Na porta, Branca segura minha mão. "Me avisa qualquer coisa." Assinto.

"Eu vou." Vânia não fala nada. Só segura o André por um segundo, forte, como se tentasse compensar anos que não podem mais ser recuperados.

"Volta com ele..." escuto ela sussurrar e André confirma.

Ele caminha até o lado do passageiro e o ajudo a se arrumar no banco, e vou para o lado do motorista. Antes de entrar, dou uma última olhada para a minha família e sorrio.

Nós vamos achar o herdeiro Bayron perdido.

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