Jonathan
O primeiro sinal foi o cartão. Negado. Eu olho pra máquina por um segundo, achando que foi erro, mas quando tento de novo a resposta é a mesma. O atendente me olha com aquele sorriso constrangido, e eu sinto o maxilar travar na mesma hora. Eu saio dali sem dizer nada. Mas já sabendo.
Ana. Claro que foi ela.
No carro, puxo o celular e acesso as contas, tentando entender até onde ela foi dessa vez. E quanto mais eu olho, mais claro fica. Ela cortou tudo. Cartões, acessos, movimentações. Tudo que vinha da empresa. Tudo que vinha do nome da família. Eu solto uma risada baixa, sem humor nenhum, e encosto a cabeça no banco.
Ela sempre foi previsível. Sempre. Porque ela acha que eu não sei jogar. Que eu dependo dela, do nosso avô, do nome, do dinheiro. Mas eu nunca confiei nela. Nunca. E é exatamente por isso que eu tenho o meu. Guardado. Separado e intocável.
Puxo outro celular do porta-luvas e acesso contas que ninguém mais sabe que existem. O valor está lá. Suficiente pra começar. Mas não pra terminar. E esse é o problema, porque o plano que eu tenho exige muito mais.
Passo a mão pelo rosto tentando organizar os pensamentos, mas uma coisa fica clara rápido demais. Eu preciso da ajuda da Emily.
Disco. Uma vez. Ela não atende. De novo. Nada. De novo. De novo. De novo. A cada chamada ignorada, algo dentro de mim começa a ferver. Quando ela finalmente atende, eu não espero.
"Onde você tá? Você enlouqueceu? O que você acha que tá fazendo? Se eu ligo, você atende na hora, entendeu?" ela ri do outro lado e aquilo me irrita mais.
"Não mais, Jonathan. Me esquece."
"Do que você está falando? A gente tem um acordo!"
O silêncio dura só um segundo. E então a voz dela chega diferente. Mais fria. Mais distante.
"Eu já estou muito longe daí. Nosso acordo acabou há muito tempo."
Isso me irrita ainda mais. Meus dedos começam a tamborilar no volante, o maxilar travado, a raiva subindo sem controle.
"Você acha que pode simplesmente sumir? Você não tem noção do que eu posso fazer com você. Te espero agora mesmo na minha casa e acho bom você aparecer..."
Ela não hesita.
"Então espere sentado. Por que eu não vou aparecer. Nosso acordo acabou no dia que eu percebi o quanto você é louco. Você não ia me ajudar. Só está fazendo isso para você mesmo. Chega!"
Dou risada, isso não pode estar acontecendo.
"Você acabou com a minha vida. Destruiu todos os meus planos. E sabe o que eu fiz? Eu contei tudo. Eles sabem cada passo seu." ela continua.
Meu corpo inteiro fica rígido. A frase ecoa. Mas eu não deixo tomar conta. Não ainda.
"Você é uma idiota. Você acha que isso vai te salvar? Você só cavou a sua própria cova, sua vagabunda. Eu vou acabar com a sua vida. Vou te destruir."
Quando penso em falar mais alguma coisa, ela desliga e bufo jogando o celular no banco do passageiro. Ligo e acelero no máximo, por que a raiva que corre dentro de mim, só alimenta ainda mais a necessidade que eu tenho de destruir todos eles.
Chego em casa ainda irritado, mas já recalculando as rotas do meu plano. Eu preciso ajustar tudo o que a Ana estragou. Entro no meu escritório e bato a porta com força.
Faltava tão pouco para o plano entrar em ação, tão pouco...
E então percebo que não estou sozinho. Dentro do meu escritório, tem 3 homens vestidos de branco, e minha irmã sentada em minha cadeira, como se fosse a rainha do lugar. Meu coração dispara, mas não é medo. É irritação pura.
"Que porra é essa, Ana?"
Ela se levanta com um sorriso no rosto e apoia ambas as mãos na mesa. O olhar dela encontra o meu. Calmo. Controlado. Frio.
Nos encaramos por um segundo a mais, e então ela sorri.
"Irmãozinho… graças a Deus..."
Ela fala mansa e então se endireita.
"Chegou o grande dia. O dia em que você vai ser internado."

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