Entrar Via

Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 224

André

Eu nunca achei que um caminho pudesse parecer tão longo. Mesmo com o carro já parado em frente ao portão do orfanato, eu não consigo sair, minhas mãos estão apoiadas nas pernas, inquietas, os dedos batendo sem ritmo, denunciando algo que eu não consigo esconder nem de mim mesmo.

Não é só ansiedade, não é só expectativa… é medo. Laís desliga o carro ao meu lado, mas não se move imediatamente, ela me observa por um segundo, em silêncio, como se estivesse medindo exatamente até onde eu consigo ir sozinho e onde ela precisa entrar, então a mão dela encontra a minha, firme, quente, presente.

"Calma, eu to aqui com você", ela diz baixo, e eu aceno, puxando o ar devagar, mesmo que pareça que ele não preenche nada aqui dentro. Eu sei que ela está ali, mas não consigo raciocinar direito.

"Eu tô com medo", admito, encarando o portão à nossa frente como se ele fosse maior do que realmente é, e ela aperta minha mão.

"Eu sei, mas você não tá sozinho." Isso me faz olhar pra ela, e é o suficiente, porque eu não estou mesmo.

Eu abro a porta do carro e saio, o ar do lado de fora é diferente, mais leve, mas não alivia nada dentro de mim, cada passo até a entrada parece pesado demais, como se eu estivesse caminhando para algo que pode mudar tudo… porque vai. Conhecer meu filho vai mudar tudo.

A recepção é simples, clara, organizada, silenciosa demais, tem brinquedos em um canto, desenhos colados na parede, cores que tentam trazer vida para um lugar que carrega histórias difíceis demais, e uma delas… é a do meu filho.

"Bom dia", a mulher atrás da mesa diz com um sorriso educado, "vocês são o casal que veio com autorização da Vara da Infância?". Laís assume na mesma hora, segura, profissional, entregando os documentos.

"Sim, já foi tudo autorizado, viemos conhecer o menor." Menor. A palavra me atravessa de um jeito que eu não esperava, mas fico em silêncio enquanto a mulher confere tudo e assente, dizendo que a diretora já está nos esperando.

Seguimos por um corredor longo e silencioso, e cada porta fechada parece carregar um pedaço de algo que eu não vivi, eu não sei como ele cresceu, não sei como foram os dias difíceis, as noites, as perguntas… eu não sei nada, e isso pesa mais do que qualquer coisa.

A diretora nos recebe em uma sala simples, mas acolhedora, e é direta sem ser fria, como alguém que já viu histórias demais para romantizar qualquer uma delas.

"Antes de levá-los até ele, eu preciso que entendam uma coisa", ela diz, cruzando as mãos, "ele é um menino reservado, inteligente, atento, mas por ser especial… ele não se apega fácil." Meu peito aperta na mesma hora. "Ele já foi visitado algumas vezes ao longo dos anos, mas nunca houve continuidade, então ele aprendeu a não criar expectativa." Eu engulo seco, porque isso dói mais do que deveria.

"O que foi dito a ele sobre sua origem?", pergunto, a voz mais baixa agora.

"Ele sabe que foi deixado aqui, mas não tem muitas informações, e não costuma perguntar muito." Algo dentro de mim se quebra ali, silenciosamente, e Laís aperta minha mão, firme, me mantendo inteiro.

"Podemos vê-lo?", ela pergunta, e a diretora assente, se levantando e pedindo calma, dizendo para deixarmos que ele conduza o tempo dele, e eu apenas concordo, porque dessa vez não é sobre mim.

"Não, não somos de nenhuma instituição. A gente descobriu algo muito importante sobre você… e veio correndo te conhecer." Aquilo parece chamar a atenção dele.

"Vocês descobriram sobre a minha origem? Então sabem quem são meus pais?"

"Você quer conversar sobre isso, Felipe?" A diretora pergunta, vendo que tanto eu quanto Laís estamos emotivos demais com a situação.

"Eu quero. Quem sabe eles saibam o que aconteceu com eles e por que eles me rejeitaram. Eu nunca entendi... eu sempre achei que foi um erro... eu...."

"Eu nunca te rejeitei." Falo me aproximando. "Eu nunca rejeitaria você." Meus olhos estão queimando e o menino percebe pelo tom da minha voz.

"Você é meu pai?" ele então sussurra.

"Sou."

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz