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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 253

Branca

Fui até o André quando ele não se mexeu.

Cheguei ao lado dele, olhei pela porta aberta, e dei um passo para trás antes de perceber que estava fazendo isso.

Victor Krieger estava na soleira.

Mais velho do que eu lembrava, ou talvez eu nunca tivesse olhado para ele de verdade, sempre de longe, sempre através do filtro do que ele representava. Alto, reto, com aquele peso nos olhos que eu não sabia dizer se era culpa ou só cansaço.

O Cássio chegou ao meu lado na mesma hora, silencioso, e eu senti a presença dele antes mesmo de ver.

Victor me olhou.

"Podemos conversar?"

Fiz uma pausa de um segundo, só um, e então abri espaço.

"Pode entrar."

Ele entrou devagar, olhando ao redor com aquele jeito de quem está lendo o ambiente, e então viu a minha mãe.

Vânia estava de pé no meio da sala, com aquela postura dela quando está segurando alguma coisa grande.

"A família toda está reunida", ele disse, e havia algo na voz que não era observação, era quase alívio.

"Não." A voz da minha mãe saiu firme, sem hesitação. "A família toda não. Meu neto não está aqui. Por culpa sua."

"Mamãe." O André deu um passo. "Se acalme."

"Ela está certa." Todos olhamos para o Victor.

Ele não desviou. Não se defendeu. Ficou parado no meio da sala e deixou aquelas palavras serem o que eram.

"Eu me culpo por isso. Se eu tivesse visto a maldade dos meus netos antes, eu teria impedido." A voz falhou levemente no final, só um pouco, mas o suficiente para eu ver. "Nunca vou me perdoar por ter perdido meu bisneto por..."

Parou.

Virou o rosto na minha direção.

"Eu vim conversar com você." Me olhou direto, sem desvio. "Podemos falar em algum lugar mais reservado?"

Olhei para o Cássio.

Ele me olhou por um segundo, e então disse, calmo e definitivo:

"Vamos ao meu escritório." Concordei, sem saber exatamente como me sentia sobre aquilo.

O escritório estava quieto quando os três entramos.

O Cássio abriu a porta, deixou a gente passar, e então fechou a porta, mantendo-se colado a ela, não me deixando sozinha.

Não queria ficar sozinha com o Victor Krieger, mas sabia que essa conversa precisava acontecer.

Me sentei na cadeira, os dedos se entrelaçando no colo, e esperei.

Victor ficou de pé por um momento, olhando ao redor, e então seus olhos foram para Cássio, o estudando por um segundo, e depois voltou para mim.

"Arranjou um bom companheiro dessa vez", ele disse.

"Sim." Não hesitei. "Achei alguém que cuida de mim como eu mereço."

Ele assentiu devagar, como se aquela frase carregasse mais peso do que as palavras.

"Eu vim pedir desculpas." Veio sentar na cadeira à minha frente, devagar, com aquela deliberação de quem está colocando orgulho de lado de forma consciente. "Por todos esses anos."

Fiquei quieta, deixando-o continuar.

Pensei em mim mesma anos atrás, com um bebê no colo e hematomas que eu escondia, sem saber para onde ir, sem ter pra quem ligar, sem encontrar uma porta que se abrisse.

Levantei o olhar.

Primeiro para o Cássio, que tinha aberto a porta em algum momento sem que eu percebesse, e estava encostado na entrada com aquela postura dele, sério, presente, os olhos me dizendo que qualquer coisa que eu dissesse ele ia defender.

E então para o Victor.

"Crie um centro de proteção para mães e filhos que sofram violência doméstica." As palavras saíram inteiras, sem hesitação, como se tivessem estado esperando por esse momento. "Um lugar que as proteja. Que as ajude a se reerguer. Que dê apoio jurídico e psicológico." engoli as lágrimas que se acumulavam. "Foi isso que eu precisei e não tive. Mas eu tinha dinheiro para me manter sozinha, a maioria não tem. Elas ficam porque não têm para onde ir." Olhei para ele sem desviar. "Honre a memória do Pedro salvando vidas."

O silêncio que veio depois foi diferente de todos os outros.

Vi quando chegou nele. Vi a garganta dele se mover quando engoliu em seco, vi quando ele assentiu, devagar, pesado, com o peso de quem está fazendo uma promessa que não tem volta.

Uma lágrima desceu pelo lado direito do rosto dele.

Ele não a enxugou.

O Cássio deu um passo para dentro da sala, veio até mim, e pôs a mão no meu ombro.

"Eu me comprometo a fazer parte da equipe jurídica." A voz estava firme, daquela firmeza que ele tem quando está sendo juiz e homem ao mesmo tempo.

Victor olhou para ele. Depois para mim.

"Quero que você esteja envolvida nisso." Fez uma pausa. "E quero fazer parte da vida da Serena, se você permitir. Quero ter a chance de fazer diferente."

Pousei a mão sobre a mão do Cássio no meu ombro.

E olhei para o Victor Krieger, aquele homem que tinha sido ausente quando eu mais precisava, que tinha olhado para mim e visto ingratidão onde havia desespero, que tinha perdido um bisneto que não precisava ter sido perdido.

"Eu vou pensar", disse.

E era a coisa mais honesta que eu podia dar a ele naquele momento.

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