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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 254

Branca

Victor Krieger saiu da mesma forma que entrou, sem pressa, com aquele peso nos ombros que eu imaginava que ia acompanhar ele por um bom tempo ainda.

Na porta, antes de ir, ele me olhou uma última vez.

"Mande o projeto quando estiver pronto", disse. "Escolha o prédio, a equipe, o que precisar. Eu arcarei com tudo."

Assenti.

E então ele foi embora, deixando uma coisa diferente em mim.

Fiquei parada por um segundo depois que o portão fechou, ouvindo a casa voltar ao próprio ritmo, e então me virei para os outros.

O André estava com os braços cruzados, processando, aquela expressão que ele tem quando está organizando alguma coisa na cabeça antes de falar. A Laís estava ao lado dele, quieta, atenta. E minha mãe estava sentada no sofá com aquele olhar de quem já viu muita coisa na vida e reconhece quando uma página vira de verdade.

"Então", o André disse por fim. "O que foi combinado?"

Contei.

Cada parte, o centro, a proposta, o que eu havia pedido e por quê. Quando cheguei na parte da equipe jurídica, o André se endireitou antes que eu terminasse a frase.

"Eu quero fazer parte."

Olhei para ele.

"André..."

"Entra no quê?" A Laís olhou para ele, e então para mim, e então de volta para ele.

"No projeto de proteção a mulheres e crianças que sofrem violência doméstica."

"Contem comigo." Falou com aquela simplicidade dela, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. "Você é assistente social, eu sou advogada, ele é advogado. Se existe uma equipe que faz sentido para esse projeto, somos nós."

O André sorriu para ela, daquele jeito rápido e cheio que ele tem quando alguém diz exatamente o que ele estava pensando.

"É o que eu disse."

Eu olhei para os dois, e para o Cássio ao meu lado, e senti alguma coisa que estava há dias guardada em algum lugar fundo começar a afrouxar.

"Eu sei tudo que precisa ter num lugar assim", falei, e a voz saiu diferente, não mais pesada, não mais segurando. "Sei o que faltou pra mim. Sei o que falta pra maioria. A estrutura, o acolhimento, os recursos que ninguém te diz que existem porque ninguém está lá para te dizer." Respirei fundo, tentando acalmar a emoção. "O Pedro vai estar em cada mulher que sair dali de pé."

Minha mãe fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, estava sorrindo.

"Meu neto vai ter o legado mais bonito que uma criança pode ter", ela disse, baixinho.

Ninguém respondeu.

Não precisava.

"Agora, a senhora vai descansar." Cássio sussurrou no meu ouvido e concordei, por que sim, meu corpo estava pedindo uma trégua.

Cássio segurou minha mão na escada.

Subimos devagar, sem pressa, e quando a porta do quarto fechou atrás da gente eu fiquei parada no meio do quarto por um segundo, olhando para o nada, deixando tudo pousar de uma vez.

Os dois presos.

O Victor aqui.

"Por tudo. Por ficar."

Ele abriu a boca para responder, mas a porta do quarto se abriu antes.

Aelyn apareceu na entrada com aquela expressão de quem chegou ao limite da própria paciência. O que, vindo dela, era impressionante, porque o limite dela era consideravelmente alto.

"Eu já enjoei de ficar dentro do quarto", ela anunciou, com a seriedade de quem está comunicando uma decisão irrevogável. "Já posso sair?"

O Cássio riu primeiro.

Eu ri junto, aquele riso que sai misturado com o resto das lágrimas que ainda estavam ali, e a Aelyn nos olhou com aquela expressão de quem não entende completamente, mas decide participar assim mesmo.

Fomos até ela ao mesmo tempo, e o abraço que veio foi daqueles que não combinam, mas se encaixam perfeitamente. Eu, o Cássio, e a Aelyn no meio reclamando que estava apertado, mas não fazendo nenhum movimento para sair.

Então ela parou.

Me olhou de perto, franzindo levemente o cenho.

"Mamãe, por que você tá chorando?"

"De felicidade", eu disse.

Ela considerou isso por um segundo, com aquela seriedade dela que sempre precede uma conclusão importante.

Então levantou a mão, passou devagar no meu rosto, enxugando o que restava.

"Então tá bom", ela disse, decidida. "De felicidade pode."

E se enfiou de volta no abraço como se o assunto estivesse completamente resolvido.

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