Felipe
O carro parou e eu ouvi o papai desligar o motor.
Fiquei parado por um segundo, as mãos no colo, tentando organizar alguma coisa que não queria se organizar. Eu conhecia consultório médico. Sabia o cheiro, sabia o barulho, sabia a cadeira dura de espera e a voz cansada de quem atende muita gente num dia só e não tem muito tempo pra cada uma.
Sabia o que era ouvir não tem muito o que fazer dito de um jeito que fechava a conversa antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa.
Então eu sabia o que esperar.
Ou achava que sabia.
A porta do meu lado abriu, e a mão da mamãe encontrou a minha antes que eu precisasse procurar apoio.
Ainda era estranho pensar que eu tinha uma pai e uma mãe. Depois de tantos anos. Eu os tinha ali comigo agora.
"Pronto?", ela perguntou.
Não era pergunta de pressão. Era daquele tipo que diz pode não estar pronto, tudo bem.
"Sim", eu disse mesmo assim. Saí do carro com ela, e logo meu pai se aproximou, me dando apoio também. Às vezes eu achava engraçado a forma como eles cuidavam de mim.
Será que todo filho que crescia com pai e mãe era cuidado assim. Com esse monte de atenção, ou era apenas porque eu... eu não enxergava?
O lugar era diferente antes mesmo de entrar.
Eu percebi pelo som, ou pela falta dele. Não tinha aquele barulho de muita gente junta, cadeiras arrastando, criança chorando no canto, televisão no volume alto tentando preencher o silêncio. Era quieto. O tipo de quieto chic. Tinha apenas uma música instrumental de fundo.
O piso era diferente também, eu sentia pela sola do tênis, mais liso, mais firme, sem aquele desgaste irregular que eu conhecia. E o cheiro não era de desinfetante forte. Era de algo mais neutro, quase sem cheiro, o que era estranho do jeito certo.
"Por aqui", a Laís disse baixinho, a mão ainda na minha.
Sentamos em algum lugar, e alguém veio até nós antes que eu esperasse, não uma chamada no alto-falante, não uma senha, mas uma pessoa chegando até onde a gente estava.
"Felipe Bayron?"
A voz era masculina, tranquila, sem aquela pressa que eu estava esperando.
"Eu sou o doutor Henrique." Ele parou por um segundo. "Posso sentar aqui um segundo antes da gente entrar?"
Eu franzi levemente o cenho, sem querer.
Nunca tinham feito isso antes.
"Pode", eu disse.
Ouvi ele se acomodar na cadeira do lado.
"Eu li o histórico que a sua família me mandou", ele disse, num tom que não era clínico, era só conversa. "E antes de qualquer exame, queria te perguntar algumas coisas. Não sobre os olhos, sobre você. Tudo bem?"
Eu fiquei quieto por um segundo.
"Tudo bem", eu disse.
A consulta foi diferente de tudo que eu tinha vivido antes.
Ele perguntou o que eu via, não de forma técnica, não com aquelas perguntas de formulário que eu estava acostumado a responder no automático. Perguntou como era, como eu descrevia para mim mesmo, se tinha diferença entre ambientes com mais luz e com menos, se tinha momentos do dia em que parecia melhor ou pior.
Eu respondi tudo.
Ouvi a Laís prender a respiração do meu lado.
Ouvi o André, que tinha ficado em silêncio o tempo inteiro com aquela disciplina que ele tem quando está segurando muita coisa ,soltar o ar de uma vez, devagar, como se tivesse esquecido de respirar por um tempo.
"O que precisa ser feito?", a Laís perguntou, e a voz dela estava firme, daquela firmeza de quem já está planejando antes de terminar de processar.
O doutor Henrique explicou: exames, avaliações, um protocolo que levaria semanas para definir, sem pressa, sem pular etapas. Eu ouvi tudo, mas em algum momento parei de acompanhar os detalhes porque havia uma coisa que ficou ecoando e que não saía.
Existe possibilidade real.
Eu nunca tinha ouvido aquilo antes.
Em nenhuma das clínicas que o orfanato me levou, em nenhuma das consultas rápidas e cansadas que eu tinha, ninguém tinha me dito aquilo. Sempre era contorno, sempre era adaptação, sempre era vamos ver o que conseguimos fazer dito de um jeito que significava não esperem muito.
Existe possibilidade real.
Quando saímos, o papai ficou quieto por um tempo.
Eu estava andando ao lado da mamãe, a mão dela na minha, e em algum momento, ela parou e eu parei junto, e ela me abraçou ali mesmo, no corredor do consultório, sem explicar por quê.
Eu abracei de volta.
E pela primeira vez em muito tempo, o futuro parecia ter uma forma diferente.
Não era certeza.
Mas era possibilidade.
E a possibilidade era mais do que eu tinha tido antes.

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