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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 262

André

O escritório estava quieto daquele jeito de fim de tarde, a assessora tinha saído mais cedo, as luzes do corredor já apagadas, só a minha mesa ainda com a tela aberta.

Eu estava terminando de assinar os últimos documentos quando o e-mail chegou.

Não era de nenhum remetente que eu esperava, era um endereço do hospital, um desses automáticos que disparam boletim médico para contato cadastrado. Eu tinha colocado meu e-mail como responsável sem pensar muito naquele dia, no corredor do San James, porque era o que precisava ser feito.

Abri.

Paciente: Emily Morrow. Estado: inalterado. Coma induzido mantido. Sinais vitais estáveis. Próxima atualização em 48h.

Li até o fim e fechei.

Fiquei olhando para a tela preta por um segundo, e então me levantei, peguei o blazer do encosto da cadeira, e desliguei o monitor.

Não era indiferença, eu sabia disso. Era escolha. Havia coisas que eu podia carregar e coisas que eu precisava me poupar, e aquilo, naquele momento, precisava ser poupado.

Abri a porta, apaguei a luz, e falei para o único estagiário que ainda estava no corredor:

"Estou indo no exame do meu filho. Qualquer coisa urgente, manda mensagem."

Ele assentiu, e eu saí, tentando afastar a imagem da Emily naquela cama de hospital.

A clínica era menor do que eu esperava pelo endereço. O doutor Henrique era sócio ali, e iria fazer pessoalmente o exame no meu menino.

Entrei, procurei com os olhos, e encontrei a Laís sentada na recepção, com aquela postura dela de quem está tranquila por fora e prestando atenção em tudo por dentro. Mas ela estava sozinha.

Olhei ao redor.

"Onde está o Felipe?"

Ela levantou o olhar.

"Já entrou."

Fui sentar ao lado dela, e então percebi.

"Você não foi junto?"

"Ele pediu para ir sozinho." Ela falou sem drama. "Disse que, se precisasse de alguma coisa mandava chamar."

Fiquei parado por um segundo, processando aquilo.

Me sentei de vez, e sem pensar peguei a mão dela, levei à boca, beijei.

Ela me olhou de lado com aquele sorriso pequeno que ela tem quando eu faço algo que a pega desprevenida.

"Ele não quer criar expectativa", ela disse, depois de um momento. "E não quer que a gente crie também." Ela respirou fundo com a conclusão de seus pensamentos. "Ele está tentando nos proteger."

Olhei para ela.

"Ele tem dez anos."

"Eu sei."

"Ele quer ser mais adulto que nós dois."

Ela sorriu de lado.

"Provavelmente já é."

Fiquei quieto por um momento, olhando para a porta fechada do fundo, aquela por onde o Felipe tinha entrado. Tinha alguma coisa naquilo que me desarmava, a forma como ele tinha chegado sem saber nada e estava aprendendo tudo ao mesmo tempo, e mesmo assim encontrava jeito de cuidar dos outros no meio do processo.

"Tem uma coisa que preciso te contar", a Laís disse.

Virei o rosto para ela.

Ela contou sobre a Aelyn. Sobre o celular, sobre a foto, sobre o Felipe ouvindo tudo em silêncio e depois dizendo que doía saber que a Emily não tinha ficado.

Eu senti a mandíbula endurecer.

"Eu já conversei com ele no carro", ela disse, antes que eu dissesse qualquer coisa. "Deixei claro que pode perguntar o que quiser, que estou disponível, que a curiosidade é normal." Ela me olhou. "Mas seria bom você falar também, André. Os dois juntos, separados, como você achar melhor. Ele precisa saber que pode confiar na gente com isso."

"Eu sei." Soltei o ar. "Eu devia ter falado mais quando contei sobre ela. Devia ter deixado mais aberto."

"Você fez o que dava pra fazer naquele momento." Ela não deixou aquilo virar culpa. "Agora a gente tem que aprender a lidar com um pré-adolescente, que está curioso sobre a mãe, sabendo que não temos as respostas."

Fiquei olhando para ela por um segundo.

Às vezes eu ficava impressionado com a clareza que ela tinha, não era frieza, era o oposto disso, era uma forma de cuidar que não perdia o norte mesmo quando tudo estava emocional demais.

"Como você é assim?", eu disse, sem planejamento.

O silêncio que veio depois era do tipo que não tem tamanho.

Eu apertei a mão do Felipe sem perceber, e ele apertou de volta, forte, mais forte do que eu esperava, e não soltou.

A Laís ficou parada do outro lado, e eu não precisei olhar para ela para saber.

O doutor Henrique continuou falando, próximos passos, datas, o que esperar nas primeiras semanas e eu ouvi tudo, mas em algum lugar fundo eu estava parado naquelas seis palavras.

Você vai voltar a enxergar.

Felipe não falou nada em momento algum.

Só ficou com a mão na minha, ouvindo, e quando o doutor terminou e perguntou se tinha dúvidas, ele sacudiu a cabeça uma vez.

Saímos do consultório os três juntos, e no corredor a Laís pôs a mão nas costas do Felipe com aquele toque leve que ela tem, e ele encostou levemente no lado dela sem parar de andar.

Chegamos até a recepção, e só então ele parou.

Ficou parado por um segundo, de costas para nós, e eu ia dizer alguma coisa quando ele se virou.

"Papai."

"Oi."

"Você chorou?"

Passei o polegar rapidamente abaixo do olho.

"Não."

Ele franziu o cenho com aquela expressão de quem não acredita mas decide não insistir.

"Tá bom."

E foi em direção à saída como se tudo estivesse resolvido.

A Laís me olhou.

Eu a olhei de volta.

E nenhum dos dois disse nada, porque não havia nada que chegasse perto do que precisaria ser dito.

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