Laís
O corredor estava quieto quando me aproximei do quarto da Aelyn.
Ia só avisar que estava na hora de sair, que o doutor Henrique tinha ligado com uma vaga para o primeiro exame ainda aquela tarde, sorte, ou organização dele, não sabia bem qual. Mas antes de bater ouvi as vozes pelo vão da porta entreaberta.
A voz da Aelyn, mais baixa que o normal.
E o silêncio do Felipe que dizia mais do que qualquer fala.
Parei por um segundo.
Não para ouvir, só para entender o momento antes de entrar.
Bati de leve.
"Felipe? Aelyn?"
O movimento dentro do quarto foi rápido, aquele tipo de rápido que tenta não parecer rápido. A Aelyn apareceu na porta com o celular na mão e aquele sorriso dela de quem está sendo completamente inocente.
"Oi, tia Laís." A voz saiu um tom acima do necessário. "Eu e o Felipe estamos ouvindo música."
Olhei para a tela do celular que ela segurava, ela estava tentando fechar a foto, mas não foi rápida o suficiente.
Eu vi.
Reconheci o rosto mesmo de relance.
Olhei para o Felipe, que estava sentado na cama com aquela postura de quem não sabe exatamente onde colocar as mãos. Olhei de volta para a Aelyn, que sustentava o sorriso com uma determinação admirável para seis anos.
Ela era uma garotinha intrigante.
"Música", eu repeti.
"Sim."
Fiz uma pausa de um segundo.
"Sem problemas." Sorri para ela. "Vim buscar o Felipe. O médico conseguiu uma vaga para o primeiro exame ainda hoje."
A Aelyn virou o rosto para o Felipe.
"Já?", ele disse.
"Sim, queremos fazer esses testes o quanto antes, certo?"
"Sim."
Ele se levantou, encontrou o chão com os pés com aquela segurança que estava crescendo a cada dia, e veio na direção da minha voz.
A Aelyn ficou parada na porta enquanto a gente saía, e eu senti o olhar dela nas nossas costas até virarmos o corredor.
O carro estava aquecido de ficar parado no sol.
Entrei, ajudei o Felipe a se acomodar no banco do passageiro, dei a volta, sentei, liguei o motor. Tudo no automático, aquela rotina que tinha se instalado sem que eu percebesse quando tinha se instalado.
"Onde está o papai?", ele perguntou, quando saímos da garagem.
"Foi resolver uma coisa no escritório. Ele disse que vai encontrar com a gente na clínica."
Ele assentiu.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, a cidade passando do lado de fora, o rádio baixo em alguma estação que eu não tinha escolhido com cuidado. Mas algo ainda martelava em minha mente, então resolvi perguntar.
"Você está curioso sobre a Emily."
Não era acusação. Saiu assim, direto, porque era a verdade e eu não via motivo para contornar.
"Está."
Mais silêncio.
"Não quero ir." A voz saiu firme, daquela firmeza que ele tem quando chega a uma conclusão por conta própria. "Só queria saber se você... se você iria comigo se eu quisesse."
"Iria", eu disse, simples. "Sempre, pra onde você quiser. Eu quero que você conheça sua origem e seu pai também. Sei que tem muitas perguntas, mas algumas só ela pode responder."
Ele assentiu uma vez, devagar.
E então ficou quieto.
Eu olhei pelo retrovisor, por nenhum motivo específico, só um desses gestos automáticos de motorista, e me peguei olhando para o reflexo dele no espelho. O perfil dele, a mandíbula levemente tensionada, as mãos quietas no colo.
Mordi o canto da boca.
Havia momentos em que eu sabia exatamente o que fazer por ele, sabia qual voz usar, qual distância manter, quando chegar perto e quando dar espaço. Tinha aprendido rápido, mais rápido do que eu esperava, porque ele era direto de um jeito que tornava fácil entendê-lo.
Mas havia outros momentos, como aquele, em que eu ficava parada dentro de mim mesma sem saber o que era certo. Ele carregava uma coisa que eu não podia carregar por ele. Podia ficar do lado, podia oferecer, podia estar presente, mas aquela parte específica, a de ter sido deixado por alguém que deveria ter ficado, era dele. Só dele.
E eu não sabia se havia coisa certa a fazer com isso.
Ou se havia coisa certa alguma.
A clínica apareceu no final da rua, e eu coloquei o pisca, diminui a velocidade, e guardei aquilo no lugar onde se guardam as coisas que não têm resposta ainda.
"Chegamos", eu disse.
Ele respirou fundo.
"Tô pronto."
E eu acreditei nele.

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