André
O celular tocou às seis e quarenta da manhã.
Eu estava acordado, tinha sido uma dessas noites em que o sono não vem de verdade, só uma camada fina de descanso que não descansa. Laís dormia ao meu lado com aquela respiração tranquila dela, e eu fiquei parado por um segundo olhando para o teto antes de pegar o celular da mesinha.
Número do hospital.
Atendi antes do segundo toque, já sentado na beira da cama, já sabendo que ligação de hospital às seis da manhã não tem notícia boa.
"Senhor Bayron?"
"Sim."
"Aqui é do San James. Sou a enfermeira responsável pelo caso da senhora Emily Morrow." Uma pausa pequena, daquelas que existem porque a pessoa do outro lado está escolhendo as palavras com cuidado. "Senhor, lamento informar que a paciente não resistiu. Ela veio a óbito às seis horas e doze minutos desta manhã. Sinto muito por isso."
Fiquei parado.
O celular ainda no ouvido, o quarto ainda escuro, a respiração da Laís ainda tranquila atrás de mim.
"Entendo", eu disse. A voz saiu automática, de algum lugar que ainda não tinha processado nada. "Obrigado por avisar."
"Precisamos que a família, ou algum representante, venha até aqui para resolver a papelada, e solicitar à empresa a remoção do corpo."
"Eu ... eu vou. Pode deixar." ela agradeceu e desligou.
Fiquei parado na beira da cama por um tempo que não sei dizer quanto foi, pode ter sido um minuto, pode ter sido cinco. Olhando para o chão, sentindo o peso daquilo pousar devagar, camada por camada.
Não era tristeza exatamente.
Era uma coisa mais complicada que tristeza, aquele tipo de sentimento que não tem nome porque é feito de muitas coisas ao mesmo tempo. O fim de algo que já estava morto há tempo. O fechamento de uma porta que eu tinha tentado fechar sozinho sem conseguir completamente. E por baixo de tudo, uma pergunta que eu não queria fazer mas que estava lá:
Como eu conto isso para o meu filho?
A Laís se mexeu atrás de mim.
"André."
Não era pergunta. Era só meu nome, dito daquele jeito que ela tem quando sabe que algo aconteceu antes de eu dizer qualquer coisa.
Me virei para ela.
Ela estava de lado, os olhos ainda pesados de sono, mas o olhar já completamente presente.
"Aconteceu alguma coisa?" me deitei ao lado dela e a abracei.
Nem eu mesmo sabia que precisava daquilo.
"Nem sempre temos todas as respostas."
"Eu sei, mas... eu acho que ele merecia ter tido essa. E não por mim, por ela... até isso ela roubou dele."
"Faremos o melhor que pudermos, vamos dar um jeito para ajudá-lo a superar mais essa fase." sem perceber uma lágrima escorreu do meu olho e a limpei.
Laís segurou meu rosto, com carinho.
"Não tem problema chorar, amor. Você segurou isso por tempo demais. Deixe sair agora."
Assenti e as lágrimas começaram a escorrer sem controle por meu rosto.
Eu finalmente entendi que estava triste, e que precisava deixar essa tristeza sair para dar fim a essa fase da minha vida.
Contar para o Felipe seria difícil, mas eu estaria ali, a cada passo dele, a cada momento onde ele também sentisse que não daria conta sozinho.
E quando nenhum de nós dois desse conta, a gente ainda teria a Laís, que era mais forte e nos ajudaria a suportar qualquer problema.
Fiquei olhando para a janela do quarto onde a manhã estava começando a clarear devagar, e pensei no Felipe dormindo no quarto azul no final do corredor, sem saber que essa manhã ia ser diferente das outras.
Às vezes a vida não te dá tempo de se preparar.
Só te dá a escolha de como aparecer.

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