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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 278

Branca

O hospital tinha aquele cheiro que eu conhecia de visitas, de consultas, daquelas noites em que a Serena resolvia me dar um susto e a gente acabava no pronto-socorro só para ouvir que estava tudo bem.

Mas dessa vez era diferente.

Dessa vez eu estava chegando de vestido de noiva.

A enfermeira que veio nos receber na entrada olhou para mim com aquela expressão de quem viu muita coisa no trabalho mas aquilo estava em outra categoria.

"A senhora é..." ela começou.

"Noiva", eu disse. "Minha filha achou que era um bom momento para nascer no meio da festa."

Ela piscou.

"Eles sempre sabem o melhor momento, mãezinha", ela disse, com uma profissionalidade admirável. "Vamos cuidar da senhora e da sua pequena."

O Cássio estava ao meu lado com aquela expressão de quem está tentando parecer controlado e não está conseguindo completamente, a mão na minha com uma firmeza que dizia mais do que qualquer palavra.

"Eu vou com ela", ele disse, como se alguém tivesse sugerido o contrário.

"Eu sei", eu disse.

"Não vou a lugar nenhum."

"Eu sei, Cássio."

"Só estou avisando."

"Eu sei, amor. Nós vamos ficar juntos o tempo todo."

A enfermeira nos guiou pelo corredor com aquela eficiência de quem faz aquilo todos os dias, e empurrando minha cadeira com cuidado.

O quarto de pré-parto era pequeno e claro.

Eles me ajudaram a me trocar. O vestido de noiva foi dobrado com um cuidado que eu apreciei mais do que esperava, aquela coisa de não querer que o dia ficasse amassado, mesmo que o dia estivesse claramente indo numa direção que ninguém tinha planejado, e quando me deitei na cama e a médica veio fazer a primeira avaliação, eu respirei fundo e tentei me lembrar de tudo que eu tinha vivido no nascimento do Pedro.

Parecia igual, mas era diferente. Hoje eu não tinha medo, como naquela época. Eu não estava sozinha, como estive quando tive o Pedro.

Serena tinha um pai presente, um pai amoroso e que estava quase infartando com toda a situação.

"Oito centímetros", a médica disse, com aquela calma profissional que eu invejei profundamente naquele momento.

"Oito?", o Cássio repetiu, do meu lado.

"Oito", ela confirmou. "Está bem avançada. Vamos preparar a banheira para o parto."

Ele me olhou.

Eu o olhei de volta.

"Eu disse que ela estava descendo", eu disse.

"Você disse que era alarme falso."

"Eu me enganei no tempo. O diagnóstico estava certo."

Ele ficou quieto por um segundo que era claramente ele pesando se aquela era a hora de continuar aquela discussão.

Não era.

Ele escolheu bem.

As contrações foram ficando mais próximas, mais longas, e nem a água da banheira ajudou. Eu tentava achar posição. Tentava achar um jeito de ficar mais confortável, mas não tinha como.

O Cássio ficou do meu lado o tempo inteiro, até o momento em que a médica disse que ele poderia entrar para me dar apoio.

O cuidado dele e a proteção foram reconfortantes. Saber que ele estava ali com a gente, me deixava mais calma de alguma forma, mesmo que a dor estivesse presente.

Quando foi mais difícil, quando a dor ficou daquele jeito que não tem descrição precisa, que é só grande e urgente e completamente presente, eu fechei os olhos e apertei a mão dele com força, que eu sabia que estava além do confortável.

Ele não reclamou nenhuma vez.

"Estou aqui, amor", ele disse, baixo, perto do meu ouvido. "Pode apertar."

"Já estou apertando."

"Pode apertar mais."

"Vou quebrar seus dedos."

"Não vai."

"Não tenho certeza disso."

"Oi", eu disse, baixinho. "Bem-vinda, meu pequeno milagre."

Ela parou de chorar por um segundo.

Como se estivesse ouvindo.

O Cássio estava ao meu lado, e quando eu olhei para ele, estava do jeito que eu raramente via, desprendido de todo seu poder, e sentindo cada sensação daquele momento.

"Ela é..." ele começou.

Parou.

Não terminou.

Não precisava.

"É", eu disse.

Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela com o dedo indicador, aquele toque de quem está verificando que aquilo é real, e a Serena virou levemente o rosto na direção do toque com aquele instinto de recém-nascido que me partiu o coração do jeito mais bonito.

"Oi, Serena", ele disse, ainda mais baixo do que eu. "Você escolheu um bom dia pra nascer, minha filha."

Ela fez aquela expressão que bebês fazem, que não é exatamente um sorriso, mas que parece, e o Cássio ficou parado olhando para aquilo por um tempo que eu não soube medir.

Eu olhei para os dois.

Amando a sensação de ter mais do que um dia eu pedi a Deus. De sentir o que é ter de verdade uma família e segurança para nós.

"Cássio", eu disse.

Ele me olhou.

"Parabéns para nós, pelo casamento e pela bebê."

Ele ficou parado por um segundo.

E então riu, aquele riso baixo e genuíno que eu adorava, que era completamente dele, que eu planejava ouvir pelo resto da vida.

"Feliz dia, amor", ele disse de volta. "Nós não sabemos fazer nada com calma."

E ficamos assim os três, no quarto pequeno e claro do hospital, enquanto lá fora o mundo seguia em frente sem saber que ali dentro tínhamos acabado de ficar completos.

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