Cássio
Fomos transferidos para o quarto assim que levaram a Serena para alguns exames.
Branca me obrigou a ir com a pequena, com medo de a trocarem, e fiz isso, segui cada local que levaram minha filha, enquanto eu pude, até que não pude mais.
Serena era prematura, e ia precisar passar umas horas na incubadora até terem certeza de que estava tudo bem.
Voltei para o quarto e Branca, me encarava em expectativa.
"Ela está bem, só está fazendo alguns exames. O pediatra disse que em algumas horas ela volta para nós."
"Horas?"
"Sim, amor, ela foi apressadinha. Estão vendo se os pulmões e o restante estão funcionando certinho." ela pareceu ainda mais preocupada, mas eu via o cansaço dela.
"Mas ela está bem, né? Você não mentiria pra mim sobre isso." Me inclinei e beijei sua testa.
"Está tudo bem. Agora descanse." ela fes que não, mas em alguns minutos o cansaço acabou a levando e fiquei de guarda.
Antes da Branca acordar, a enfermeira chegou com a Serena em um bercinho, e fui até lá. Ela a pegou e me entregou e fiquei olhando para ela.
"Ela está completamente bem. Nem parece ser prematura." sorri olhando para a garotinha, que tinha movimentado todo o nosso dia.
"Ela é uma Ravelli. Sabe o que é chegar chamando atenção." a enfermeira apenas riu e saiu me deixando com a pequena nos braços.
Fiquei conversando com ela por um tempo, até que Branca acordou.
"Ela já está aqui?" me virei e caminhei até ela, entregando nosso pacotinho.
"Ela está bem. Não precisa mais se preocupar." os olhos marejaram e ela a envolveu com carinho.
"Obrigada." ela disse e a encarei.
"Pelo que exatamente?"
"Por estar aqui e cuidar de nós." ela sorriu e eu a beijei.
"E onde mais eu estaria?" Não dissemos mais nada, até que a porta se abriu e dona Vânia entrou.
Ela colocou a bolsa de lado. Já não estava mais com as roupas da festa e caminhou até a Branca.
Ficou observando as duas por um tempo e quando falou, a voz estava daquele jeito que ela raramente deixava aparecer.
"Perfeita", ela disse. "Igual à mãe."
A Branca riu baixinho.
O André e a Laís vieram logo depois, sorrisos de orelha a orelha, e Laís deu uma cutucada nele, para não fazer barulho, pois Serena estava dormindo.
E então ouvi.
Do corredor.
Aquela voz inconfundível que não sabia modular o volume nem quando tentava.
"Mas eu preciso ver ela agora..."
"Aelyn, tem que esperar..."
"Mas ela é minha irmã..."
"Eu sei, mas..."
"Papai disse que eu podia vir..."
"Seu pai disse que você podia vir quando fosse a hora..."
"É a hora."
Fui até a porta.
O Felipe estava no corredor tentando, com toda a paciência que ele tinha desenvolvido nos últimos meses, explicar para a Aelyn que havia um protocolo, e a Aelyn estava ouvindo com aquela expressão de quem está ouvindo, mas não está concordando com absolutamente nada do que está sendo dito.
Quando ela me viu, os olhos dela mudaram.
"Papai." A voz saiu daquele jeito específico que ela usava quando sabia que eu era a instância final de apelação. "Eu posso entrar?"
Eu olhei para ela.
Para o vestidinho de daminha, um pouco amassado depois de horas de festa e correria, o cabelo com as florzinhas ainda presas, mas algumas escapando, os olhos com aquela mistura de ansiedade e determinação que era completamente dela.
"Por que não se trocou?" eu disse.
"Por que eu quero que a Serena me veja linda." sorri de lado e ela correu para me abraçar. "Posso vê-la agora?"
"Pode, mas façam silêncio, que ela está dormindo."
O Felipe soltou o ar e os dois entraram.
O quarto ficou menor quando a Aelyn entrou.
Não porque ela ocupasse muito espaço fisicamente, mas porque ela tinha aquela presença que preenchia os ambientes antes que o corpo chegasse completamente.
A Serena estava nos braços da Branca, pequena e quieta, os olhos fechados com aquela paz de quem acabou de fazer uma viagem longa e está descansando.
A Aelyn ficou completamente imóvel.
Para a Aelyn, que nunca ficava imóvel, aquilo era extraordinário.
Ela foi se aproximando devagar, daquele jeito cuidadoso que ela tinha quando decidia ser cuidadosa, que era raro mas impressionante quando aparecia, até chegar perto o suficiente para ver.
Ficou olhando.
Ele estava vendo ela.
De verdade vendo, com aqueles olhos que tinham aprendido a ver, olhando para aquele rosto pequeno com aquela atenção toda que ele tinha, absorvendo cada detalhe.
"Ela tem o cabelo da Branca", ele disse depois de um momento.
"Tem", eu confirmei.
"E as mãos são pequeninas." Ele olhou para as mãos da Serena que estava com os punhos fechados daquele jeito que recém-nascidos têm. "Menores do que eu imaginava."
"Você imaginou as mãos dela?", a Aelyn perguntou.
"Eu imagino muita coisa que não vi ainda." Ele a olhou de lado. "Você não imagina?"
Ela pensou.
"Imagino." Uma pausa. "Mas não sobre maõs." Nós rimos.
O quarto ficou quieto daquele jeito bom que é cheio em vez de vazio.
Eu fiquei parado perto da porta, olhando para as três crianças na cama, a Aelyn que estava verificando se o Felipe estava segurando a Serena do jeito certo, o Felipe que estava deixando ela verificar com aquela paciência que só ele tinha, a Serena quieta no meio dos dois como se soubesse que estava em boas mãos.
A Branca me olhou.
E eu vi no olhar dela o mesmo que eu estava sentindo.
Aquela sensação de que a família estava completa, não no sentido de que não havia mais espaço, mas no sentido de que havia o suficiente. Que todo mundo que precisava estar ali estava, que cada pessoa naquele quarto tinha chegado por um caminho que não era simples e que por isso mesmo fazia sentido de um jeito que caminho simples nunca faria.
"Papai", a Aelyn chamou, sem tirar o olho da Serena.
"Oi."
"A Serena vai ser minha melhor amiga quando crescer."
"Vai?"
"Vai." Ela falou com aquela certeza dela que não precisava de argumento. "Eu já decidi."
"E ela não tem voto nisso?"
A Aelyn considerou aquilo por um segundo.
"Ela vai concordar", ela disse. "Eu sou muito boa de amiga."
O Felipe soltou aquele riso curto que escapa quando ele não está esperando.
E eu fiquei parado na entrada, pensando em como havia momentos que eram exatamente o que precisavam ser.
Esse era um desses.

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