Branca
Três meses.
Eu ficava olhando para a Serena dormindo no cercadinho e ainda não conseguia acreditar que três meses tinham passado. Ela estava maior, não muito, mas o suficiente para que eu notasse a diferença nas fotos, aquele crescimento silencioso que acontece enquanto você está ocupada vivendo.
A casa estava cheia hoje.
Cheia daquele jeito bom que eu tinha aprendido a reconhecer como o meu jeito favorito de casa, barulhenta, quente, com cheiro de comida vindo da cozinha onde a Tamara estava há horas, e vozes em todos os cômodos, e aquela sensação de que não há espaço sobrando nem nenhum faltando.
Fiquei parada na entrada da sala por um momento, só olhando.
A Laís estava no sofá com aquela barriguinha redonda que tinha aparecido de vez no último mês, as mãos pousadas sobre ela daquele jeito automático que toda grávida desenvolve sem perceber. O André estava ao lado dela, dizendo alguma coisa baixinho que fez ela rir, e havia algo nos dois que era tão completo que eu precisei piscar para não me emocionar ali mesmo sem avisar.
O Felipe estava no canto da sala com a Aelyn.
Minha Aelyn.
Ela estava de joelhos no tapete com aquele jogo de tabuleiro que ela tinha insistido em montar, explicando as regras com a seriedade de um juiz, regras que eu tinha certeza que estavam sendo inventadas em tempo real e o Felipe ouvia com aquela paciência infinita que só ele tinha com ela, o sorriso pequeno no canto da boca que aparecia especificamente naquelas situações.
A Aelyn que carregava o coração do Pedro no peito.
Eu pensava nisso às vezes, não com dor, mas com aquela ternura que vem quando algo que foi muito difícil encontrou um jeito de continuar bonito. O coração do meu filho batia ali, naquela menina impossível e maravilhosa que tinha entrado na minha vida junto com o Cássio e que eu não conseguia mais imaginar sem.
Olhei para a parede da sala.
A foto do Pedro estava ali, aquela sorrindo, de quando ele tinha dois anos, com aquele sorriso que era completamente o do André e que ainda me partia o coração do jeito certo. Ao lado dela, a foto da Serena no hospital, ainda com aquela expressão de recém-chegada. E mais para o lado, uma que a Vânia tinha tirado sem avisar de mim, do Cássio e da Aelyn abraçados na festa de casamento antes de tudo virar caos.
Ele sempre seria lembrado.
Sempre seria amado.
E havia espaço para tudo, para a saudade e para a alegria, para o Pedro e para a Serena, para o que foi e para o que estava sendo. Eu tinha aprendido isso aos poucos, com a ajuda de pessoas que não tinham deixado eu aprender sozinha.
"Você está fazendo aquela cara de novo", o Cássio disse, aparecendo ao meu lado.
Eu o olhei.
Ele estava com aquela postura dele, aquela que eu chamava internamente de postura de chefe de tudo, ombros retos, aquela calma que ocupava espaço, mas havia algo diferente nela hoje. Mais solto. Mais presente.
"Qual cara?", eu perguntei.
"A de quando você está pensando em coisa demais ao mesmo tempo e processando sem avisar."
"Estou só olhando."
"Eu sei." Ele colocou o braço ao redor dos meus ombros. "O que você vê?"
Eu fiquei em silêncio por um segundo, deixando aquela pergunta ser respondida de verdade.
"Tudo que eu conquistei por não desistir", eu disse, por fim.
Ele não respondeu com palavras.
Só me puxou um pouco mais para perto.
***
Dois meses atrás, a Instituição Pedro Bayron Krieger tinha aberto as portas.
Eu tinha chorado no dia da inauguração, não o choro contido que eu guardava para momentos públicos, mas o outro, o de verdade, aquele que veio quando a primeira mulher entrou pela porta com uma criança no colo e um olhar que eu reconheci porque já tinha sido o meu.
Aquele olhar de quem não sabe se pode ficar.
De quem passou tanto tempo sendo convencida de que não merecia ajuda que desconfia quando ela aparece.
Eu tinha ido até ela.
Me apresentei. Sentei ao lado dela. Não disse muito, aprendi que no início palavras demais assustam. Só fiquei ali, deixando o silêncio dizer que havia espaço, que havia tempo, que ela podia ficar.
Ela tinha ficado.
Nos dois meses desde a abertura, vinte e três mulheres tinham passado pela instituição. Algumas ainda estavam lá, reconstruindo o que sobrou. Algumas tinham seguido em frente com suporte jurídico e psicológico. Todas tinham saído sabendo que havia um lugar.
O Pedro teria gostado disso.
Eu tinha certeza.
A Vânia apareceu da cozinha com aquela expressão de general satisfeito.
"O jantar está quase pronto." Olhou para a sala. "Alguém pode chamar as crianças para lavar as mãos?"
"Eu chamo", a Aelyn disse, sem que ninguém tivesse pedido especificamente a ela.
O Felipe levantou o olhar.
"Você é uma das crianças", ele disse.
"Eu sou a mais velha. Então sou a responsável."
"Sou 4 anos mais velho que você. Então tecnicamente..."
"O que é técnica...ente .. como se diz?" todos rimos e ela ficou brava.
A Laís olhou para ele com aquela expressão de quem estava segurando alguma coisa.
O André se inclinou, colocou a mão na tampa da caixa, e olhou para a Laís, aquele olhar de casal, rápido e completo.
Ela assentiu.
Ele levantou a tampa.
Os balões subiram de uma vez, rosas, vários, enchendo o espaço da sala com aquela cor que não deixava dúvida.
E o Felipe levantou os dois braços.
"Eu disse!" A voz saiu mais alta do que ele provavelmente pretendia, mas ninguém se importou. "Eu disse desde o primeiro dia!"
A Laís virou para ele rindo, os olhos cheios, e ele a abraçou, e o André foi junto, e os três ficaram ali, aquele abraço que não precisava de explicação.
A Aelyn olhou para os balões, para o Felipe, para a barriga da Laís, e então para mim com aquela expressão que ela tem quando está absorvendo coisa demais ao mesmo tempo.
"A Sophia vai ser minha amiga também?", ela perguntou.
"Vai ser sua priminha", eu disse.
Ela considerou aquilo com seriedade.
"Melhor ainda", ela concluiu.
E então foi abraçar a Laís também, porque era a Aelyn e ela nunca ficava de fora de nada.
Eu fiquei parada olhando para tudo aquilo.
Para os balões rosas enchendo a sala. Para o Felipe que ainda estava sorrindo com aquele sorriso inteiro que eu adorava ver. Para a Laís que estava sendo abraçada por todo mundo ao mesmo tempo com aquela graça dela. Para o André que estava com os olhos cheios e o sorriso e a expressão de homem que tem tudo que sempre quis.
Para a Serena que tinha acordado de novo com todo o barulho e estava olhando para os balões com aquela concentração de bebê de três meses tentando entender o que é cor.
Para o Cássio que me encontrou com o olhar do outro lado da sala.
E para a foto do Pedro na parede, sorrindo daquele sorriso que era do André, que estava ali onde sempre estaria.
Eu estava feliz.
Completamente, inteiramente, sem reserva.
E aquilo, eu tinha aprendido, não apagava a saudade.
Só a acomodava no lugar certo, perto do coração, onde as coisas que importam ficam, junto com tudo que estava vivo e barulhento e lindo ao meu redor.

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