Felipe
18 anos depois
O escritório tinha aquele cheiro de papel e café que eu estava aprendendo a associar com o meu cotidiano.
Não era o escritório do meu pai, o dele ficava no fórum, daquele jeito formal de juiz que eu conhecia desde criança. O meu era menor, mais novo, com aquela bagunça organizada de quem acabou de começar e ainda está descobrindo onde cada coisa fica. Três pilhas de processos na mesa, dois copos de café ao longo do dia, a janela que eu tinha insistido em manter aberta porque precisava da luz natural de um jeito que as pessoas que nunca ficaram sem ela não entendiam completamente.
Eu tinha vinte e oito anos.
E já tinha mais processos do que conseguia contar, porque meu pai tinha aquela teoria, que eu discordava educadamente mas que na prática estava funcionando, de que a melhor forma de aprender era fazendo.
Estava relendo um contrato pela terceira vez, tentando encontrar a cláusula que o cliente jurava que existia e que eu jurava que não existia, quando a porta se abriu.
Não bateu primeiro.
Eu não precisei olhar para saber quem era.
"Sophia."
"Irmão." Ela entrou com aquela energia que era completamente dela, não a energia da Aelyn, que era expansiva e tomava conta de tudo, mas a dela, que era mais quieta e por isso às vezes mais eficiente. Dezessete anos e já sabia exatamente o que queria quando entrava numa sala. "Hoje eu e as primas vamos no cinema. Quer ir com a gente?"
Eu olhei para a pilha de processos.
"Não posso."
"Irmão."
"Tenho alguns processos para dar encaminhamento ainda hoje. O prazo é amanhã."
"Mas irmão." Ela veio até a mesa e se sentou na cadeira da frente com aquela desenvoltura de quem não foi convidada mas também não se importa. "A gente queria que você fosse."
"Vocês vão se divertir sem mim."
"Não é a mesma coisa." Ela me olhou com aquela expressão que ela tinha copiado da nossa mãe sem perceber, aquela de quem está sendo paciente mas tem um argumento guardado. "A Aelyn abriu uma vaguinha na agenda dela pra gente."
Eu pausei.
Olhei para ela.
"Ela abriu uma vaguinha?"
"Sim." Sophia falou como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, quando claramente não era. "Você sabe como ela é. A esteticista mais requisitada da cidade, quase nunca consegue sair com a gente. Mas ela vai." Ela parou me encarando. "Você podia ir junto."
Eu fiquei em silêncio por um segundo.
Olhei para o processo na minha frente.
Olhei para a Sophia.
"O que você está aprontando?"
Ela abriu os olhos com aquela inocência que era completamente falsa.
"Nada. Eu só quero passar mais tempo com a minha família."
"Sophia."
"Sério."
"Você e a Serena estão tramando alguma coisa." Encostei na cadeira. "Conheço vocês duas desde que nasceram. Essa história de querer passar tempo com a família aparece quando tem algum plano por trás."
Ela ficou quieta por um segundo, aquele segundo específico de quem está decidindo quanto revelar.
"Já falei para vocês pararem com essa ilusão", eu disse, antes que ela abrisse a boca. "Eu e a Aelyn não vamos ter nada. Já deixei isso claro."
"Eu sei", ela disse.
"Então para de..."
"Eu não estou falando sobre isso. Você que está."
Eu a olhei.
"Juro." Ela levantou as mãos. "Dessa vez não." Fez uma pausa. "Na verdade..." Ela olhou para o lado, daquele jeito específico que ela tinha quando estava prestes a dizer alguma coisa que sabia que ia causar reação e estava avaliando o timing. "A Aelyn está namorando."
O silêncio que veio depois ocupou a sala inteira.
Eu fiquei parado.
"Namorando?", eu repeti.
Namorando.
Ela estava namorando.
Eu sabia que ia acontecer algum dia, era óbvio, era natural, era completamente esperado. A Aelyn era a Aelyn, com aquela energia que preenchia os ambientes e aquele jeito de aparecer no momento certo que eu conhecia desde que tinha dez anos.
Claro que ia namorar.
Era completamente normal.
E eu estava completamente bem com isso.
Passei os olhos pelo contrato de novo.
Não absorvi uma única linha.
Fechei a pasta.
Abri de novo.
Fechei.
Fiquei olhando para a janela por um momento, para a luz de fim de tarde que entrava, aquela mesma que eu tinha aprendido a achar bonita quando aprendi a ver.
Eram cinco e meia.
O cinema era às sete.
Eu tinha processos.
Tinha prazo.
Tinha trabalho acumulado que não ia sumir.
Abri a gaveta, peguei as chaves.
E fui buscar meu carro.
Eu precisava conhecer esse cara.

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