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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 287

Aelyn

O Luciano chegou às seis e meia em ponto.

Eu sabia que ia ser assim, ele era daquelas pessoas que nunca se atrasavam, que chegam no horário exato como se tivessem ficado esperando na esquina para não chegar cedo demais. Médico residente, especialidade em cirurgia cardíaca, e com aquela disciplina de quem passou anos aprendendo que timing importa.

Abri a porta e ele entrou com aquele sorriso que às vezes me esquecia que existia porque eu já estava acostumada com ele, mas que nas outras pessoas causava um efeito considerável.

Considerei considerável porque a Serena, que eu tinha achado que era imune a qualquer coisa depois de anos convivendo com a família toda, ficou completamente parada no meio da sala.

A Sophia piscou duas vezes.

"Oi", o Luciano disse para as duas, completamente alheio ao efeito que estava causando, porque era exatamente o tipo de pessoa que não percebe essas coisas não por falta de inteligência, mas por genuína ausência de vaidade.

"Oi", as duas responderam, levemente atrasadas e eu ri da cara delas.

Se era para brincar de impressionar, eu ia usar meu melhor aliado.

Eu fechei a porta.

"Então", eu disse, indo para o centro da sala com aquela energia de quem precisa manter o foco ou vai perder o controle da situação. "Sei que estou pedindo muito. Sei que isso pode te trazer problemas, mas essas duas me deixaram sem saída."

"Relaxa, você sabe que eu já tinha cogitado isso..."

"Lu, eu nem sei como tive coragem de te pedir isso. Você é meu amigo, não tinha que se envolver, mas essas duas me deixaram sem escolha."

"Vocês se conhecem de onde?" Minha irmã perguntou e ri da cara dela.

"A gente se conheceu no consultório", o Luciano disse, se sentando no sofá com aquela desenvoltura. "Fui fazer um procedimento, e a Aelyn me atendeu tão bem... que sempre voltei, viramos amigos desde então."

A Serena ainda estava olhando para ele com aquela expressão.

"Serena", eu disse.

Ela piscou.

"Ele é real?", ela perguntou, genuinamente.

O Luciano deu uma risada, aquela que saía do peito, a que eu gostava nele porque era completamente sem filtro.

"Sou real", ele confirmou.

"Seu namorado não vai ficar bravo de você estar me ajudando com isso?", eu perguntei, voltando ao ponto.

Ele me olhou com aquela expressão de quem está prestes a dizer algo que vai ser ao mesmo tempo gentil e completamente direto.

"Ele apoiou a ideia", o Luciano disse. "Porque ele também acha que você precisa descobrir logo o que o Felipe quer." Cruzou os braços. "Se quiser me usar pra fazer ciúme, use. Mas..." Fez uma pausa. "Se não surtir efeito, a gente quer que você siga em frente de verdade. Esse é nosso pedido, por que vemos o quanto isso te machuca. Você sempre fala dele e ... enfim. Como seus amigos, queremos que seja a última tentativa ."

A sala ficou quieta por um segundo.

Eu olhei para as minha irmã e para minha prima.

"Se vocês não tivessem inventado um namorado falso pra mim", eu disse, "nada disso estaria acontecendo."

"Nós aceleramos um processo que já estava acontecendo", a Sophia corrigiu, com aquela calma dela que às vezes era a coisa mais irritante do mundo.

"Eu tenho certeza que ele gosta de você", ela continuou, mais séria agora. "Só que ele não tem coragem de falar porque acha que vai estragar o que vocês têm."

Eu abri a boca.

A Sophia fez o mesmo, com aquela expressão de quem genuinamente não sabe.

Fui até a porta e abri e então fiquei estática.

O Felipe estava na soleira.

Arrumado, não do jeito casual de sempre, mas daquele outro jeito, aquele que aparecia quando ele decidia que ia a algum lugar de verdade. A camisa certa, o cabelo no lugar, aquela postura dele que eu conhecia de cor, mas que às vezes ainda me pegava desprevenida quando aparecia assim, sem aviso.

"Pensei em passar aqui pra buscar vocês", ele disse, com aquela voz direta que era tão dele. "Pra gente ir junto."

Eu fiquei parada por um segundo, processando.

Ele veio.

De verdade.

E então os olhos dele se moveram, daquele jeito específico dele de ler o ambiente antes de qualquer coisa, aquele hábito que tinha ficado mesmo depois que a visão voltou e passaram por mim.

E pararam.

Eu virei o rosto para seguir o olhar dele.

O Luciano estava alguns passos atrás, de pé no meio da sala, os braços levemente cruzados, olhando para a porta com aquela presença tranquila que ele tinha e que em qualquer outro contexto eu acharia completamente inofensiva.

O Felipe olhava para ele.

O Luciano olhava para o Felipe.

E eu fiquei ali entre os dois, no meio daquele silêncio que tinha durado menos de três segundos, mas que parecia ter preenchido o corredor inteiro, sentindo alguma coisa que eu não soube nomear imediatamente, mas que reconheci antes de ter palavra para ela.

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