Branca Oliveira
Limpei o rosto com o dorso da mão antes que as lágrimas voltassem a cair. Não porque a dor tivesse passado, mas porque, se eu não me movesse, ia afundar ali mesmo.
"Eu vou fazer a Aelyn dormir", falei, com a voz mais firme do que me sentia. "Se você quiser chamar seu advogado pra vir aqui depois… tudo bem. Se não, eu ligo pro meu. Isso não pode ficar assim." Respirei fundo. "Simplesmente não tem como."
Ele me encarou em silêncio. Aquele olhar pesado, atento, como se estivesse medindo cada pedaço do estrago que aquela história tinha causado em mim. Então se aproximou.
Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. Tremi. Não de medo. De ódio. De exaustão. De tudo que estava acontecendo comigo sem que eu tivesse escolhido nada disso.
Quando a mão dele tocou meu rosto, suave, quase reverente, algo dentro de mim cedeu.
Foi como se o mundo diminuísse o volume.
A respiração desacelerou. O nó no peito afrouxou só um pouco. O suficiente para doer ainda mais.
"Fica tranquila", ele disse baixo. "Eu vou resolver isso. Quem está fazendo isso, está atrás de mim, não de você. Só te usaram como facilitadora para ferrar com a minha vida."
Assenti, incapaz de dizer qualquer coisa. Fiquei ali, olhando para ele, enquanto o polegar dele ainda desenhava um carinho lento na minha pele. Um gesto simples. Íntimo demais para o momento errado em que estávamos.
Até que ele pareceu lembrar quem era. Quem eu era.
Me afastei de repente, como se seu toque me queimasse, mordi o lábio e desviei os olhos no mesmo instante.
"Já vou."
Meu coração estava disparado. E eu não sabia dizer por quê. A expectativa daquele momento. A adrenalina por tudo que estava acontecendo. Não sabia nomear.
Virei rápido e caminhei quase depressa demais pelo corredor. Precisava sair dali antes que meu corpo traísse o que minha razão ainda tentava segurar.
Quando cheguei ao quarto hospitalar da Aelyn, encontrei-a acordada, os olhos atentos, o corpinho inquieto na cama.
"Eu achei que você já estaria dormindo", falei, forçando um sorriso.
"Não consegui", ela respondeu. "Fiquei preocupada com você. O que aconteceu?"
Ajoelhei ao lado da cama.
"Coisas de adultos", disse com cuidado. "Você sabe… a gente é complicado."
Ela sorriu de lado.
"Meu pai está sempre preocupado. Se não comigo, com os julgamentos. É muita coisa, né?"
Assenti.
"Muita coisa."
Coloquei a mão com cuidado perto do coração dela.
Aelyn, ainda de olhos fechados, levou a mãozinha por cima da minha.
"Canta pra mim?"
E eu cantei.
Baixo. Devagar. Com todo o amor que existia em mim naquele momento.
Passei por várias músicas que o Pedro amava, enquanto minha mão ainda estava ali, até que percebi que ela realmente tinha dormido. Então me inclinei dando um beijo em sua testa e me afastei, encontrando o olhar de Cássio observando a cena.
"Está ai desde quando?" falei aos sussurros.
"Vim dar boa noite para ela, mas não quis atrapalhar. Sua voz é muito bonita." sorri de lado.
"Não é nada. Só uma coisa boba. Meu filho preferia dormir assim... e Aelyn parece gostar também..."
"E eu entendo por que eles gostavam." ele respirou fundo e então disse. "Meu advogado já chegou, quer falar com ele agora, ou quer deixar para amanhã?"
"Quero falar com ele agora. Eu preciso." ele concordou e abriu caminho para mim. "Vamos até o escritório." dei uma última olhada para a menina e o segui.
Ao entrar no escritório, meu corpo inteiro ficou tenso, porque eu conhecia aquele advogado. Conhecia mais do que gostaria de admitir.

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