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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 30

Branca

Assim que atravessei a porta do escritório, meu corpo inteiro travou.

Não foi medo. Foi reconhecimento.

O homem que estava em pé, próximo à mesa, virou-se devagar. O movimento foi simples, quase distraído. Mas, no segundo em que nossos olhares se encontraram, o mundo perdeu o eixo.

Ele empalideceu.

Eu senti o chão fugir sob meus pés.

O ar ficou pesado demais para entrar nos pulmões, e meu coração começou a bater de um jeito desordenado, como se tivesse acabado de reconhecer algo que eu havia enterrado viva.

"Branca…" Cássio começou, a voz estranha, cautelosa. "Esse é o André Bayron, meu advogado. E amigo. Ele está cuidando de tudo pra mim, e…"

Ele não terminou.

Eu já estava me movendo.

Atravessei o escritório sem pensar, sem pedir licença, sem me importar com mais nada. Quando percebi, meus braços estavam ao redor de André, e o impacto daquele corpo conhecido contra o meu fez algo dentro de mim se partir de vez.

"Eu não acredito…" ele murmurou, a voz rouca, incrédula. "Não acredito que é você."

O choro veio sem aviso. Forte. Descontrolado. Anos inteiros represados explodindo de uma vez.

Eu senti André me apertar contra ele, como se tivesse medo de que eu desaparecesse de novo se soltasse. Meu rosto se perdeu no ombro dele, e eu soluçava como alguém que finalmente tinha parado de fugir.

Ao redor de nós, eu sentia a presença de Cássio. Ele andava de um lado para o outro, tenso, inquieto. Eu não precisava olhar para saber que ele estava tentando entender o que diabos estava acontecendo.

André me afastou um pouco, segurando meu rosto entre as mãos.

"Onde você esteve todos esses anos?" Ele me encarava com uma mistura de alívio e revolta. "Você faz ideia do desespero da nossa mãe quando você sumiu? Como pôde fazer isso com a gente?"

Eu abri a boca.

Nenhuma palavra saiu.

Tudo o que consegui fazer foi chorar mais forte.

Aquele silêncio era uma confissão por si só. E eu sabia. Sabia que, naquele momento, Cássio estava juntando as peças. Todas. De uma vez.

Ele parou de andar.

"Vocês querem me contar o que está acontecendo", a voz dele subiu, carregada de algo perigoso, "ou eu vou ter que continuar assistindo esse reencontro do casalzinho?"

O ódio ali não era teatral. Era cru.

André virou-se lentamente para ele, o olhar frio, afiado.

"Se você está insinuando que eu tenho algum caso com a minha irmã, a gente vai ter um problema sério, amigo."

O escritório ficou em silêncio.

Cássio congelou.

"Irmã?" repetiu, como se a palavra não fizesse sentido.

"Então…" A voz falhou. "O Pedro… o Pedro que…"

Assenti.

Devagar.

"É o nosso Pedro."

As lágrimas voltaram a encher meus olhos.

"A Cida estava com ele", continuei, as palavras saindo entrecortadas. "Eu dizia que ela era minha mãe, por segurança. Pra todos os casos." Engoli em seco. "Mas um homem bêbado… um louco… bateu no carro deles quando estavam voltando do mercado. Eu… eu não pude fazer nada."

O silêncio que se seguiu foi pesado demais para suportar.

André me puxou de novo para um abraço apertado, desesperado. Eu me desfiz ali, soluçando nos braços que eu sentira tanta falta sem sequer admitir.

Cássio não disse nada.

Mas eu sentia.

Sentia o choque. A traição. A confusão. O início de uma raiva que não tinha nome ainda.

E soube, com uma clareza dolorosa, que depois daquela noite nada entre nós três seria simples de novo.

Porque o passado tinha voltado.

E não estava pedindo licença.

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