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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 294

Aelyn

O Luciano tinha razão.

Eu olhei para o Felipe parado no corredor da minha casa às quase meia-noite, com aquela expressão que eu raramente via nele, descompensado, era a única palavra que encaixava, e pensei que ele tinha razão em tudo.

Os primeiros botões da camisa abertos. O cabelo que normalmente ficava no lugar agora com aquele bagunço específico de quem passou horas passando a mão. Aquela postura que não era a dele, que era tensa de um jeito diferente do tenso controlado que eu conhecia.

Ele tinha surtado de verdade.

E havia uma parte de mim, uma parte que eu deveria ter silenciado, mas que estava completamente acordada depois da conversa no carro, que achava aquilo a coisa mais bonita que eu tinha visto em muito tempo.

Mas aquela parte ia ter que esperar.

Porque pela cara dele, a gente ia brigar primeiro.

Ele se aproximou.

E eu me lembrei, não pela primeira vez, de como ele era mais alto do que eu. Faz quanto tempo que eu não reparava nele assim, ou será que era por que ele parecia completamente diferente? A forma que ele me olhava de cima, me dava a impressão de que aquele era outro Felipe, não o garoto que eu conheci na infancia.

"Aonde você estava?"

A voz saiu controlada. Controlada demais, daquele jeito que significa que a coisa está prestes a deixar de ser controlada.

Passei por ele.

Não porque não tinha visto, mas porque passar por ele como se não fosse nada era a única forma de não deixar que aquela expressão dele, me atingisse e eu desistisse do plano.

Larguei a bolsa no sofá e me virei.

"Estava na casa do meu namorado." Cruzei os braços. "Por quê?"

Ele bufou.

Aquele bufo específico de quem está segurando alguma coisa.

"Eu disse que não era pra você ir lá."

Eu ri.

Não foi um riso planejado, saiu, daquele tipo que aparece quando alguma coisa é genuinamente absurda.

"E desde quando você manda em mim?"

Ele parou.

As mãos foram para a cintura, aquela postura dele, aquela que aparecia no escritório quando estava sendo um advogado que não vai ceder, e me olhou com aquela expressão.

"Eu sou teu primo. Sei o que é melhor pra você."

"Ah, sabe." Mantive o tom leve porque era mais eficiente do que o contrário. "Poxa. Porque só sabe agora?" Me inclinei levemente para o lado. "Não estou entendendo seu problema, Felipe. O que é? Está com ciúme que eu encontrei alguém que me queira?"

A expressão nos olhos dele mudou.

Estava perto agora... perto o suficiente para ver cada detalhe daquela expressão, para ler as camadas naqueles olhos verdes que eu conhecia antes de qualquer outra coisa no mundo. Perto para sentir vontade de tocar e sorrir, como sempre fiz quando era mais nova.

"O que você quer, Felipe?" A voz saiu baixa. Não suave, baixa, daquele jeito que é mais sério do que qualquer volume. "O que você quer de verdade?"

Ele abriu a boca e fechou... ele não tinha resposta para aquilo.

"Porque eu..." Parei por um segundo, deixando aquilo assentar antes de continuar. "Eu resolvi seguir em frente. Resolvi parar de esperar por alguma coisa que você deixou claro que não existe." Mantive o olhar. "E não estou conseguindo entender o que você quer ou qual é o seu problema com o Luciano." Fiz uma pausa. "Então ou você fala de uma vez, de verdade, não essa coisa de primo preocupado que você está usando porque é mais fácil, ou vai embora, que eu quero descansar."

O silêncio que veio depois tinha peso.

Aquele tipo de silêncio que não é vazio mas que está cheio de coisas que nenhum dos dois estava dizendo ainda.

Nos encaramos.

Eu não desviei.

Ele não desviou.

E o corredor ficou quieto ao redor dos dois, com aquela tensão específica de momento que está prestes a virar alguma coisa e que nenhum dos dois sabia ainda o que era.

"Eu não vou embora até a gente resolver isso."

"Isso o que?"

"Você terminar com o Luciano."

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