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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 295

Felipe

Eu me odiei assim que as palavras saíram.

Não de imediato, houve uma fração de segundo em que aquilo ficou suspenso no ar entre nós, ainda quente, ainda real, e eu fiquei parado olhando para ela olhando para mim e pensando que talvez, só talvez, eu pudesse recolher aquilo de alguma forma.

Não podia.

Ela me olhava com aquela expressão, não raiva ainda, era algo antes da raiva, aquele estado de quem está processando uma informação que não esperava e ainda não decidiu o que fazer com ela.

E eu me odiei.

Mas ao mesmo tempo, e isso era a parte mais perturbadora de toda a noite, de todos os últimos quatro anos, eu sabia que tinha sido o mais sincero que tinha sido em muito tempo.

Passar a mão no cabelo foi um reflexo, aquele gesto que aparecia quando eu estava tentando organizar alguma coisa que não queria se organizar.

"Só faz isso, tá?" A voz saiu mais baixa do que eu pretendia. "Pelo que somos."

Ela ficou me olhando por um segundo.

"O que somos?"

Não havia sarcasmo na pergunta. Era genuína, daquele tipo que dói mais do que qualquer acusação porque é honesta.

"Você está louco?" A voz dela subiu levemente. "Me rejeitou há quatro anos. E agora quer que eu termine porque está se doendo?" Ela riu, aquele riso desacreditado que era pior do que choro. "Que lógica é essa, Felipe?"

"O que você queria que eu fizesse, porra?"

Saiu antes que eu pesasse.

Ela ficou parada.

Eu fiquei parado.

E por um segundo aquela palavra ficou no ar entre a gente, aquela honestidade bruta que escapa quando o controle vai embora de vez.

"Somos primos." A voz saiu diferente agora, não era raiva, era aquela outra coisa que eu carregava há tempo e que tinha escolhido chamar de prudência porque era mais fácil do que chamar pelo nome certo. "Somos família. Eu não quero perder isso. Não quero te perder."

Ela riu de novo.

Mas esse riso era diferente do anterior, não era desacreditado, era aquele tipo que aparece quando alguma coisa dói demais para ser tratada de outra forma.

"Então eu tenho que ficar solteira para sempre para você manter seu mundo perfeito?" A voz dela estava controlada, mas havia algo nela que era afiado. "Eu trancada aqui dentro, sem ter ninguém, nem você, apenas existindo da forma que você quer para a sua felicidade?"

Eu abri a boca e fechei em seguida.

Não havia resposta para aquilo.

Não havia resposta boa, pelo menos, e qualquer outra coisa seria uma mentira que ela ia ler em dois segundos.

"Sai da minha casa, Felipe." A voz dela foi para aquele lugar quieto que era mais definitivo do que qualquer volume. "Não tenho por que discutir a minha vida amorosa com você."

Ela se virou.

E eu não sei o que aconteceu.

Não sei se foi o cansaço, ou a noite inteira pesando como chumbo nas minhas veias, ou aquela frase dela, “existir da forma que você quiser”, mas alguma coisa dentro de mim quebrou antes que eu pudesse pensar.

Dei dois passos.

Minha mão agarrou o braço dela com força demais.

Ela se virou.

E eu a beijei.

"Não."

Simples. Direta. Daquele jeito que era completamente a Aelyn quando tinha chegado num lugar por conta própria.

"Eu estou com alguém agora." Ela me olhou, e havia algo nos olhos dela que era ao mesmo tempo firme e partido. "E você vai ter que aprender a lidar com isso."

O silêncio que veio depois era diferente de todos os outros.

Não era o silêncio de briga.

Era o silêncio de depois, aquele que fica quando tudo foi dito e nenhum dos dois sabe ainda o que fazer com o que foi dito.

Eu fiquei olhando para ela.

Para essa mulher que eu conhecia desde que tinha dez anos, que tinha me dado um chaveiro de elefante no primeiro dia, que tinha descrito o mundo para mim antes de eu poder vê-lo, que tinha tentado me beijar numa virada de ano e que eu tinha deixado partir por razões que naquele momento eram impossíveis de justificar.

E que agora estava de pé na minha frente, com os olhos cheios e a postura de quem não vai ceder.

Eu virei.

Fui até a porta.

Peguei as chaves que tinha deixado no aparador.

E antes de sair, parei com a mão na maçaneta.

Não me virei.

"Eu não vou desistir", eu disse, para a porta.

E saí.

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