Cássio
O quarto estava em silêncio quando voltei.
A luz baixa do abajur deixava tudo em tons suaves, quase irreais. Foi só então que vi as duas.
Branca dormia de lado, com Aelyn encolhida contra o peito dela, um braço pequeno envolvendo a cintura da babá como se fosse a coisa mais natural do mundo.
E talvez fosse.
Minha filha respirava tranquila. O rosto relaxado. O corpo seguro. Protegida. Por ela.
Aquela imagem me atingiu num lugar que eu não tinha palavras para nomear. Não era só gratidão. Não era só alívio. Era algo mais profundo. Algo que me desmontava.
Fechei a porta com cuidado e me aproximei devagar. Deitei ao lado delas, mantendo espaço suficiente para não acordar Aelyn. Não consegui fechar os olhos.
Fiquei ali, apenas observando.
Branca tinha um jeito calmo até dormindo. O rosto sereno demais para alguém que carregava tanta dor. Um fio de cabelo loiro caía sobre os olhos dela, e antes que eu pensasse melhor, estiquei a mão e o afastei com cuidado.
Meus dedos tocaram de leve a pele do rosto dela.
Um gesto simples. Íntimo demais.
Eu a admirava mais do que gostaria de admitir. Queria tê-la comigo, mesmo quando ela dizia que não estava pronta. Talvez fosse medo. Talvez fosse prudência. Não importa. O que estava nascendo entre nós era maior do que o medo que resistia. Ela sabia que podia confiar em mim, e eu tinha certeza disso, pois meu bem maior já estava nos braços dela.
Mas eu não tinha medo.
Do mesmo jeito que protegia minha filha, eu protegeria Branca. Não importava de quem. Nem de quê.
A noite passou sem que eu dormisse.
Enquanto elas descansavam, minha mente trabalhava. Pensava em Laís, em André, em cada detalhe do processo. Em como desmontar aquela acusação absurda. Em como manter o ex-marido da Branca longe. Distante. Inofensivo. Como desligar toda a rede de manipulações sem nos atingir.
Tudo o que eu queria era paz.
Se fosse preciso, largaria o juizado. Trocaria tudo pela paz de acordar todos os dias com aquela visão.
Foi quando ouvi a voz dela.
"Cássio…"
Baixinha. Sonolenta. Me virei de imediato.
"Bom dia", murmurei.
"Bom dia", ela respondeu, com um sorriso cansado.
Aelyn ainda dormia, agarrada a ela.
Levei-a até o banheiro.
"Fica calma, tá? Eu sei que é confuso, ainda mais com tudo que vem acontecendo. Mas não precisa ter medo de deixar o Pedro para trás, porque ele sempre vai estar aqui." Coloquei minha mão em seu coração. "E aqui é um lugar bondoso e generoso, e sempre tem espaço para mais. Por isso você está confusa, porque Aelyn já está tendo um pedacinho aqui dentro também."
"Não é só um pedacinho, não. Eu amo a sua filha." Aquilo me emocionou e voltei a abraçá-la.
"Obrigado por isso." falei entre seus cabelos. "Eu nem sei como te agradecer por ser tão boa com ela." Ficamos assim alguns minutos apenas, deixando que a dor e a saudade se misturassem, e nos preparassem para um novo dia.
Dei um meio sorriso, me afastando. "Hoje talvez a gente tenha uma cozinheira nova. Enquanto isso, vou me arriscar na cozinha. Vou lá preparar algo para nós."
Ela riu.
"Pode deixar que eu faço isso. Tenho medo dos seus dotes culinários" Fez uma pausa. "Quem é a cozinheira? Como encontrou alguém tão rápido?"
"A Laís indicou. O nome dela é Tamara. Conhece?"
O sorriso de Branca se abriu de verdade.
"Ah, Deus…" ela levou a mão ao rosto, rindo. "Vou engordar uns quinze quilos com ela aqui."
Ri junto.
"Então estamos escolhendo a pessoa certa."

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