Branca
Eu estava na sala quando a campainha tocou.
Cássio se levantou primeiro, como sempre. Postura reta, expressão neutra. Aquele modo dele de assumir qualquer situação como se fosse uma audiência importante. Eu respirei fundo antes de acompanhá-lo.
Meu corte ainda doía um pouco. E sim, era para eu estar de repouso, mas eu não conseguia. Eu queria estar ali com ele e com a Aelyn. Não doente em uma cama, esperando a recuperação.
Essa não era eu. Prometi para ele e para mim, que teria mais cuidado.
Quando Tamara entrou, trazendo duas sacolas nas mãos e um sorriso aberto no rosto, senti um alívio imediato.
"Tamara, que bom que você veio." falei depois que ela cumprimentou o Cássio e se virou para mim.
"Eu não sabia se trazia alguma coisa ou se isso seria invasão", ela disse, erguendo as sacolas. "Então trouxe umas guloseimas para provar meus dotes culinários."
"Você acertou", respondi, rindo. "Aqui qualquer comida é bem-vinda. Ainda mais considerando a minha." ela torceu o nariz e demos risada.
Ela me abraçou com carinho. Não éramos inseparáveis como eu e Laís, mas havia afeto. Daquele tipo que não precisa de explicação.
Antes que Cássio começasse, Aelyn apareceu na sala.
Os olhos dela brilharam no instante em que viu as sacolas.
"O que é isso?", perguntou, já se aproximando.
"Quitutes", Tamara respondeu, agachando-se. "Você gosta de doce?"
A resposta veio em forma de um biscoito já na mão.
"Ah eu adoro biscoitos, bolos, pudim. Muito doces gostosos."
Cássio observou a cena por um segundo, depois pigarreou.
"Filha, agora a gente precisa conversar com a Tamara. Depois eu te chamo de novo, tá?" ela concordou e saiu correndo com três biscoitos na mão.
"Por favor, sente-se." ele falou, indicando o sofá.
Tamara assentiu e se sentou. Eu fiquei ao lado dele, naturalmente. Como se aquele fosse, de algum modo, meu lugar.
Ele foi direto.
"Bom Tamara, acredito que Laís já te contou um pouco sobre a nossa rotina. E como estamos os três precisando de alguém que forneça a alimentação indicada pela nutricionista." Ela concordou com a cabeça. "Não sei se já trabalhou em casa de família antes."
"Não senhor. Somente em restaurantes."
"E como era sua rotina no restaurante?"
Tamara respondeu com segurança. Falou dos horários, da pressão, das equipes reduzidas, da falta de recursos.
"Preciso ser claro", Cássio disse, com a voz firme. "Aqui a rotina é longa. Entrada às sete da manhã. Saída às dezenove da noite. Há horário de almoço, pausas, e duas folgas integrais por mês. O salário compensa essa carga. Mas não quero que seja pega desprevenida. Aqui não é um mar de rosas."
Eu observava.
A seriedade dele. O cuidado com cada palavra. A forma como explicava, sem rodeios, mas sem frieza. Mordi o lábio sem perceber.
Ele ficou… bonito demais naquele papel.
"Para mim está perfeito", Tamara respondeu. "Só de poder continuar fazendo o que eu amo, já estou feliz."
Cássio assentiu uma única vez.
"Então está contratada."
Simples assim.
Sorri antes mesmo de perceber.
"Para de procurar confusão", ela respondeu, rindo.
Antes que eu retrucasse, ouvimos uma batidinha leve na porta.
Nos viramos juntas.
Laís estava ali, agora em seu traje de advogada fatal, pastas debaixo do braço. André ao lado dela, sério, observando tudo com atenção.
Tamara inclinou a cabeça e cochichou:
"Que gato. Me apresenta?"
Ri, sem conseguir evitar.
Laís entrou na cozinha, apoiando as pastas na bancada.
"Agora sim", disse animada. "Teremos nosso triozinho sempre reunido. Regado às melhores comidas e gargalhadas."
Olhei para André.
O olhar dele estava diferente. Mais atento. Mais interessado.
Meu irmão parecia querer conhecer esse meu lado que ele nunca tinha visto.
"Vou deixar as senhoritas e ir conversar com o Cássio. Te espero conosco em dois minutos, Láis."
"Pode deixar chefe."
"Chefe?" falei a olhando mais atenta.
"Sim, sou a mais nova contratada do escritório Bayron." A abracei feliz.
Parecia que finalmente tudo estava se encaixando.

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