No celular, a voz de Karina soava gentil, mas não era difícil perceber um leve tom de tristeza por trás de seu esforço para manter a compostura:
— Ana, onde você está?
Eu sabia muito bem que, se não houvesse algo importante, Karina não teria me ligado, ainda mais com essa atitude tão amena.
No entanto, como ela se mostrou tão educada, decidi não a confrontar. Se eu fosse rude demais, acabaria sendo a culpada. Afinal, tecnicamente, ela ainda era minha família.
Respirei fundo e respondi:
— Aconteceu alguma coisa? Pode falar direto.
Do outro lado, ouvi uma risada constrangida.
— Pietro acordou. Disse que não te viu. Quando você vai ter um tempinho para nos visitar?
Sentiu saudades de mim?
Por que isso soava tão suspeito?
Até hoje, minha presença era o que Karina mais odiava. Eu era a mulher que não daria filhos à família Henriques. O que de bom poderia surgir de um encontro com ela?
Estava prestes a recusar, mas Karina, como se tivesse lido meus pensamentos, continuou:
— O médico disse que Pietro não aguenta mais um ano, e isso é no melhor dos cenários. Se algo pior acontecer, não dá para prever quando ele vai partir, e ele passará o resto da vida no hospital. Mesmo com tudo o que já aconteceu entre nós, ainda somos uma família. E Pietro realmente sempre te amou. Se ele morrer e você não tiver nem sequer olhado para ele uma última vez...
Ela não terminou a frase, mas eu entendi o que queria dizer.
Provavelmente, se referia ao arrependimento que eu sentiria se não o visse uma última vez...
Senti-me um pouco abalada. Afinal, foram os momentos de carinho da família Henriques que me ajudaram a manter esse lar, especialmente nos anos em que minha relação com Bruno estava tão fria.
Karina, com sua longa experiência como a matriarca da família Henriques, soube encontrar o tom e as palavras certas. Mesmo após todas as brigas, ela sabia que, por causa de Pietro, eu não teria coragem de recusar.
— Amanhã à tarde.
— Ótimo. — Do outro lado da linha, Karina parecia estar sorrindo de orelha a orelha. — Eu e Pietro estaremos esperando por você! Ele vai ficar muito feliz! Não jante, tá bom? Você não adora a comida da dona Rose? Vou pedir para ela preparar algo e mandar para você.
Eu não tinha disposição para mais conversa, então encerrei a ligação. Nesse momento, Luz entrou no quarto.
— Onde você pensa que vai? Você mal consegue ficar de pé, qualquer coisa te derruba, e você quer sair assim?!
Ao que parecia, durante o tempo em que eu estava desacordada, febril de tanto estresse com Bruno, ele conseguiu libertar a irmã. E lá estavam eles, desfrutando de sua vida familiar, como se tudo estivesse perfeito.
Senti minha mão se apertar ao redor do buquê, com tanta força que o papel de embrulho começou a fazer barulho. Só então percebi o que estava fazendo e me recompus.
Respirei fundo e bati educadamente na porta.
Todos no quarto olharam na minha direção. Não importava se a alegria deles era verdadeira ou apenas uma fachada, todos me saudaram com sorrisos. Pietro, em especial, sorriu tanto que seus olhos se transformaram em duas pequenas fendas.
Gisele saltou da cama, caminhando com passos leves até mim e, em um movimento ágil, me envolveu em um abraço apertado.
— Ana, você finalmente veio!
Meu corpo, ainda fraco, quase cedeu com o impacto do abraço. Dei dois passos vacilantes antes de conseguir me equilibrar.
Um calafrio percorreu meu corpo, pois, nesse momento, eu não era apenas responsável por mim... Também carregava meu filho no ventre.
Meu coração, que batia freneticamente, mal teve tempo de se acalmar antes que eu ouvisse Gisele sussurrar em meu ouvido, em um tom sombrio que só nós duas poderíamos ouvir, enquanto ela ria suavemente:
— Ana, eu te avisei, não? O que você poderia fazer contra mim?

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