Lilly
— O que você está fazendo aqui?
Aaron pergunta novamente, e sua expressão me assusta. Ele já não parecia mais o cara debochado de sempre.
— Desculpa... — digo, e começo a andar em direção à porta.
— Não ouse entrar aqui de novo! — ele grita atrás de mim, fechando a porta com força.
Como não podia sair de casa, calcei minhas sapatilhas e desci até o salão. Fiquei ensaiando até tarde, tentando ignorar tudo, quando ouvi a porta se abrir atrás de mim. Virei devagar, e lá estava Aaron, parado, me observando em silêncio.
— O que você quer? — perguntei, tentando não dar atenção à sua presença.
— O jantar está sendo servido — ele respondeu, sem tirar os olhos de mim.
— Não estou com fome — disse, e percebi seus olhos se estreitarem. Ele veio em minha direção, olhando fixamente para o meu pescoço. Sua expressão mudou de repente. Sem dizer nada, puxou uma cadeira no canto do salão e se sentou.
— O que está fazendo? — perguntei, achando sua expressão estranha.
— Bom... já que você não vai jantar, pensei em me juntar a você — disse, cruzando os braços.
— Eu não quero você aqui, Aaron! Aliás, quem é a pessoa da foto? — questionei, me aproximando dele.
— Você não acha que faz perguntas demais? — rebateu, cruzando uma perna sobre a outra e apoiando o braço no encosto da cadeira.
— Por que não aproveita e dança pra mim?
O jeito como ele me olhava naquela noite... era diferente.
— Por que eu dançaria pra você? — cruzei os braços, encarando-o.
— Porque estou pedindo educadamente — disse com um sorriso sarcástico. O pior é que ele tinha razão. Não precisava pedir... poderia simplesmente me ameaçar, como já haviam feito antes.
— E o que eu ganho com isso? — perguntei, mantendo o olhar firme.
— Acho que você não está em posição de escolha, bailarina.
— Nem você — retruquei, indo em direção à porta.
— O que você quer?
Me virei, surpresa. Não sabia o que era mais chocante: ele querer que eu dançasse para ele ou... fazer uma proposta.
— Quem é a pessoa da foto? — perguntei, encostando-me à porta. Seu olhar permaneceu sobre mim, até que ele soltou um suspiro irritado e respondeu:
— Minha ex-noiva.
Ex-noiva? Ele ia se casar?
— Por que não se casaram?
— Isso não faz parte do acordo — disse sério. — Já respondi à sua pergunta. Agora é sua vez.
Respirei fundo, tomei coragem e fui até o centro do salão. Apertei o play da música e me posicionei. Fechei os olhos, tentando ignorar o fato de que ele estava me observando. Mas era impossível. Cada passo, cada pirueta... eu sentia seu olhar queimando sobre mim, como faíscas percorrendo meu corpo.
A música ganhava força, e eu a acompanhei com movimentos fluidos. Finalmente, abri os olhos. Ele continuava ali, imóvel, mas o olhar... aquele olhar intenso fazia minha pele formigar.
Fiz uma sequência de piruetas em sua direção, até que senti suas mãos envolverem minha cintura e me puxarem, me fazendo sentar em seu colo.
Me afastei o suficiente para olhar em seu rosto. Seus olhos azuis pareciam duas estacas prontas para me atravessar. Ele passou os dedos pelo meu rosto, devagar, até chegar à minha boca. Brincou com ela, sem desviar os olhos dos meus.
Aaron depositou um beijo leve no canto da minha boca e se afastou, atento à minha reação. Passei a mão pelo seu peito e percebi sua respiração acelerada. Inclinei-me e beijei o canto de sua boca de propósito. Ele sorriu, como se estivesse gostando do jogo. Então seus lábios tocaram os meus. Apertando minha cintura com mais força e começou a descer para o meu pescoço, beijando cada centímetro, fazendo escapar de mim um leve gemido.
Quando me afastei, ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
— Desculpa... Não devia ter mexido nas suas coisas — falei, esperando por uma resposta que não veio. Em vez disso, ele voltou a colar os lábios aos meus. Seu beijo foi intenso, e, pela primeira vez, eu não me sentia culpada... como me sentia com Austin.
Ele assentiu, mas seus olhos diziam outra coisa. Ele sabia que eu estava mentindo. E eu sabia que ele não desistiria de descobrir a verdade.
Passei o dia inteiro evitando todos. Ensaiava sozinha, trancada no salão. A presença de Aaron ainda parecia pairar no ar, como se ele estivesse me observando mesmo sem estar ali. E, no fundo, eu sabia que ele estava.
À noite, quando fui até a varanda respirar um pouco, vi uma silhueta encostada na parede do jardim era ele, Aaron. Como se estivesse me esperando.
— Achei que você tivesse sumido — falei, sem olhá-lo diretamente.
— Estava dando espaço... como você pediu, hoje cedo.
Virei para ele. — Você ouviu?
— Sempre escuto. Principalmente quando te diz respeito.
Ele se aproximou. Aquele olhar, novamente, como se ele pudesse me despir só com os olhos.
— Aquele beijo... — comecei.
— Foi real — ele me interrompeu. — Não finja que não sentiu nada.
— Foi um erro — sussurrei, mesmo que minhas palavras doessem mais do que eu esperava.
Ele se aproximou mais, até nossos rostos quase se tocarem. — Então por que está tremendo agora?
Minhas mãos se fecharam em punhos. Eu odiava o poder que não apenas ele mas seus irmãos tinha sobre mim. O pior era saber que, de algum jeito, eu também tinha algum sobre eles.
— Vocês está mexendo com minha cabeça, Aaron.
— E você com a nossa, pirralha.
Ele se afastou, deixando no ar aquela mesma sensação de caos que ele sempre trazia consigo.

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