Desesperada, Lucinda segurou por um triz outro apelo, chamando-o de irmão; desta vez, a razão venceu; compreendia cabalmente o quão destrutiva poderia ser se insistisse. Em nada Douglas teria misericórdia.
— A mãe deitou o corpo num desmaio na mesma tarde, retornando aos limites agora mesmo! — Ela saltou do eixo sem se conter da aflição. — Eu compreendo que não vim deste ventre, só não esqueça que, entre tudo e todos, você se encontra como consanguíneo desta mesma matriz que repousa aqui.
A ressalva não dita de entrelinhas não ficava de escanteio no vocabulário mudo entres eles mesmos.
Se uma só lâmina emocional resvalasse Soraia sob aquelas condições em que a sua carne definhava frente às minguadas fagulhas espirituais contidas num fiapo e um pio pudesse sepultar no mais impiedoso mergulho sem retorno de lucidez. Nenhum filho providenciaria esse punhal se prezar um grão pela progenitora e esse seria o perfil da postura do Douglas.
Medindo rapidamente o declínio nítido contido pela senhora e recordado subitamente o alerta das faculdades psiquiátricas do plantão proibindo embates ruidosos, forçou todas as revelações que vinham subindo por suas cordas vocais para debaixo da terra de novo.
E ao mesmo compasso detinha absoluta lucidez ao confirmar as peças que manipulavam o silêncio atado à chantagem vil com cara lavada pela falsa.
Então limitou-se ao ultimato fatal com que ela ficasse na bagagem com ele de presente, despachando num cicio: — Você pode até adiar o acerto de contas, mas não escapará de pagar a dívida.
O coração de Lucinda esfriou.
Sondando a toxicidade trocada numa enigmática cifra com olhares cortados entre ambos, a preocupação sulcou fundo no rosto de Soraia.
— Mãe, vou te... ver de novo amanhã sem falta. — Recurvou a curvatura lombar ao pescoço da madrasta para ofertar uma amarra calorosa do contato; num segundo virou-lhe os ombros, batendo em retirada do recito.
Mas atravessando aos limiares dos batentes rumo a porta o afeto esfumou-se de todo em todo e um terror sepulcral preencheu seus buracos ópticos a tornar tudo opaco e assustador numa escuridão medonha vertendo nos ossos do crânio pálido.
Tudo passara dos eixos a ponto não sobrar espaço num centímetro da própria condução no volante, de tal forma não carecia provar inação aguardando só bater.
Pescando à pressa os botões do smartphone dentro do couro forrado no colo do bolso, despejou dezenas de numerais digitados de conexão oculta e fronteiras transnacionais. Quando o contato atendeu soltou secamente os recados em timbre inaudível: — Deixe preparados dois agentes.
No quarto de hospital.
Soraia estatelou-se nos travesseiros sentindo as pernas bambearem frente a uma tristeza sem-fim perambulando, afogada numa solidão de um único filho que espantara dali uma companhia feminina; se antes se encontrava confortada com dois encostados nela e agora ela repousava restrita, enojada com as expulsões proferidas pela sua descendência de mesma carne que abrigara e moldara e expulsara o restolho que sobrara do afeto materno.
Como os tempos que regem são mutáveis a ponto, calou as chamas da insolência de um filho não repreendendo ao vivo por qualquer mínimo desaforo como puniria num estalar d'olhos num instante se tivesse voltado um curto passado atrás.
— Douglas Siqueira, aturem as divergências que forem que duram entre vós... Os vinte e oito calados de harmonia familiar com você na convivência com aquela miúda de estima perene de irmão, deveriam pesar na balança.
— Não me leve o limite; recuso descer este assunto até a base, não há resgate pro inferno mãe! — Num instante atravessou no diálogo dela triturando qualquer argumento sem chances no seu gélido, indomável encarar impenetrável; mais uma fresta sobre esta, um único compasso deixado livre nas vogais maternais e o passo já se lançaria ao abismo da despedida sumária e cruel dele porta afora.
Restou cerra as vistas àquela face num suspiro asfixiante e com grande ressentimento.
Douglas de imediato alçou uma bainha das espessas e acochoadas plumagens sobre ela arrumando a dobradura num trajeto carinhoso sob o gélido lençol e demandou: — Onde exatamente o pai esteve todo tempo?
Todo o dorso de Soraia emperrou no mesmo instante numa linha dura.
— A senhora junto ao bendito Patriarca da nossa gente orquestraram confina-lo nos corredores cortando a comunicação? — sondou o filho num instinto incisivo desmascarando numa só tirada sem perdão as mentiras acobertadas em silêncio.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim
Parece até que mudou o autor do livro. Uma linguagem rebuscada, parecendo até português de Portugal....
A esposa do Robson era Nara Lessa, de repente mudou para Soraia Siqueira....
Estou amando o livro, só gostaria de maiores atualizações....
Cade a atualização dos ultimos 10 capitulos?????...