— Fique tranquila. O foco de Lucinda Siqueira é unicamente garantir o próprio passe pela fronteira e evaporar do país. Sendo forçada a escorar a própria vida no Sr. Siqueira, ela evitará machucá-lo precipitadamente; arcar com mortes no trajeto seria assinar a sua última confissão de culpa.
Com sentimentos indizíveis, Douglas Siqueira observava Rodrigo. O desgraçado que possuía uma língua de víbora com todos os demais comportava-se feito um santo de afeto perante Inês, agindo bizarramente como se espíritos afáveis o houvessem possuído.
Com o assentimento plácido nos músculos do rosto, Inês murmurou:
— Rô, vamos recuar por ora.
— Sim. — Rodrigo acatou, destrancando as chapas veiculares e acomodando a sua garota. Notando a dispersão na mente dela, curvou-se gentilmente sobre o chassi de couro e, após escorar afetuosamente as palmas na nuca da mulher, colou os lábios firmes na pele cálida da testa.
Serpenteando a besta de metal, adentrou o espaço e esmurrou as marchas de ignição.
A viatura secundária de Douglas também efetuou uma manobra bruta para evaporar do campo.
Embora a cortina noturna desabasse fria e fétida, a tropa oculta — plantada firmemente na emboscada nas margens de atracação de águas — permaneceu imutável.
...
Oculta no silêncio mórbido do anonimato, Lucinda respirava as sombras na cidade adjacente, encostada num galpão fantasma que exalava decadência nas zonas ermas rurais.
Pelo rascunho primário de sobrevivência, deviam perfurar as patrulhas até as divisas distantes do continente ao Sul. A tragédia abalou a confiança estratégica ao testemunharem as falanges e mastins da lei entupirem cada veia e estrada rodoviária; Lucinda ignorara por completo que as forças da polícia e as influências esmagadoras de Inês Jardim poderiam selar cada via urbana. O veneno da decepção queimava na percepção de que o homem de cabelos prateados, sem consideração alguma pelo derramamento do sangue da própria companheira matrimonial, articulava na sombra com o adversário.
Felizmente, os dotes olfativos e a sobrevivência animalesca forjados na poeira de Ruslan salvaram-nos de afundar a garganta nas mandíbulas da lei. Exigindo apalpar até os últimos remendos da couraça de Robson e esmiuçá-lo, o capanga destroçou as emboscadas de GPS antes do fim trágico.
A despeito da fuga sangrenta do pântano de rastreio policial, a espinha dorsal de Lucinda rachou e estremeceu em desespero e agonia redobrados.
O destino bifurcava a foice; apostar de olhos fechados nas artérias litorâneas ou engatinhar vagarosa e miseravelmente na vegetação em rota fatal rumo ao perímetro sulista.
Saltar nas docas e apostar as roletas parecia uma declaração de suicídio precoce; por outro lado, empunhar uma maratona sangrenta com corpos de peso-morto e bagagens parentais rebeldes significava um gigantesco fardo. Abdicar dos escudos humanos resultaria num farol vermelho atirando dados exatos da fuga.
Os dentes morderam ódio impuro e dispararam contra a face de Robson:
— Desprezível e amaldiçoado! O velho escolheu destroçar a esposa legítima em sacrifício e arriscar a própria estrutura física pelo demônio recém-retornado. Deseja comprar a clemência barata aos pés de Inês?
A pedra não moveu músculo; com as pálpebras fincadas e a psique atada a um sossego sereno, Robson fingiu alheamento.
O aço na bota de Ruslan desabou implacável; o esqueleto velho, açoitado na parede mofada da ruína, cambaleou. Mantendo as cordas vocais congeladas em apatia plácida, escovou gentilmente a podridão da crosta térrea nos próprios costados de tecido e apoiou-se no pilar cinzento.
Nojo escorria pelas unhas de Lucinda, contudo, por ser a própria imundície procurada e foragida nos tribunais, aguentar os odores da desgraça tornara-se lucro.
Equipado com o maquinário da tortura e supressão, o grandalhão rasgou as fitas amarrando as duas carnes decrépitas de Soraia e Robson em simetria dorsal e vertical do pilar maciço. Restringia-se-lhes a locomoção; e embora as falanges do som passassem no pilar de pedras, um cume escondeu um ao outro nos cegos reflexos oculares.
Soraia afundou os ombros no silêncio da dor da meia-noite afogada nas águas lacrimais.
O plácido refém, Robson, exalou a conformidade que exala de cadáveres relaxados sob as sentenças absolutas; encenou estar na profundidade de Morfeu, abraçando o escuro.
Até que os galos virtuais das 3 da madrugada bateram e apunhalaram as luzes vitais, Robson arrancou-se das correntes da sonolência de papel; seus ossos falangeanos desataram a caça ao forro escuro e grosso das mangas luxuosas. Ali dentro, apertou uma pílula diminuta cristalizada blindada em resina dura, não maior que a porção de semente do trigo humano.
O sargento que empurrara em seu pulso, confidenciou em sussurro metálico: era um Sinalizador Hidroativado indetectável! As veias de energia murchavam até o ápice, blindando as trilhas vitais do aparelho e anulando os espectros radiativos ou antenas terrestres.
Seria imprescindível o abalo tectônico das engrenagens físicas com o rompimento trincado, induzindo as moléculas salinas líquidas do ambiente interno a abraçarem a rede do microchip; servindo qual poção eletrocondutora, o pulso bélico das engrenagens engatilharia a via do GPS e as artérias do LBS e, num clarão oculto aos olhos de predadores, a teia invisível exporia as marcas sangrentas da gaiola atual!
Amarrado às dores esmagadoras dos membros exauridos e as articulações engolidas pelo cansaço do assoalho fétido, o idoso trincou as veias do pulso, açoitou os tecidos refinados contra o entulho pontudo, roçando ininterruptamente contra os paralelepípedos afiados até as vibrações das artérias cristalinas derreterem em fissuras e o berro silencioso de caça se esvaísse da bolha eletrônica!
Se, sob as paredes recheadas das clínicas civis a matança seria sangrenta e cheia de alardes públicos indesejados, agora as celas sombrias e putrefatas do isolamento galpão de escombros entregariam o teatro fúnebre sem misericórdia policial!

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim
Pra que um livro tão longo? É muito cansativo. Estou no capítulo 244 só agora ela foi revelada, para mim o livro só teria mais o envolvimento dela com o Rodrigo e acabaria ai, mas não, tem que passar de mil capítulos....
Parece até que mudou o autor do livro. Uma linguagem rebuscada, parecendo até português de Portugal....
A esposa do Robson era Nara Lessa, de repente mudou para Soraia Siqueira....
Estou amando o livro, só gostaria de maiores atualizações....
Cade a atualização dos ultimos 10 capitulos?????...