O que houve entre eles já tinha ficado para trás há muito tempo. Ela nunca lhe deveu nada.
Ainda assim, naquela noite, ninguém conseguiu pregar os olhos.
Dois dias depois, ao cair da tarde, Brad apareceu no escritório de Aella.
Ela lhe serviu um copo d’água e disse, sem rodeios: "Brad, se veio tentar me convencer de alguma coisa, nem perca seu tempo."
Brad sentou-se no sofá, fazendo o copo girar devagar entre os dedos.
Seus olhos afiados estudaram o rosto dela por muito tempo, até que finalmente falou.
"Se a Raine não tivesse desmascarado, estaríamos todos iludidos", disse Brad, com um suspiro de impotência. "Ele nunca deixou realmente para trás."
Brad adotou um tom cauteloso, como quem testa o terreno: "Aella, talvez, pelo bem da Virginia e da Raine, você pudesse falar com ele? Só para ajudá-lo a aguentar mais um pouco."
Aella sentou-se à frente dele, a expressão tomada de contradições.
"Engraçado", murmurou baixo. "Não foi você quem apoiou meu divórcio desde o começo?"
Brad pousou o copo, deu a volta na mesa de centro e sentou-se ao lado dela.
Seu rosto ficou sério. "Fui eu. Mas isso não significa que eu não queira que vocês dois fiquem bem."
Ele continuou, com suavidade: "Tyrone volta hoje à noite. Eu sei que você não quer encontrá-lo sozinha. Eu vou com você. Eu conduzo a conversa; você entra só quando precisar. Que tal?"
Aella abaixou a cabeça e ficou em silêncio. Brad suspirou, se levantou e disse: "Certo, tudo bem. Se você não quiser, não vou forçar."
Ela o acompanhou até a porta.
Quando chegaram à porta, ele, de repente, estalou os dedos contra a testa dela.
"Ai!" Aella reclamou, cobrindo o local e lançando-lhe um olhar zangado.
Brad cruzou os braços e o rosto se endureceu. "Você e o Tyrone são iguais. Dá vontade de bater a cabeça de vocês dois para ver se entra juízo."
Aella ficou no vão da porta, observando-o partir, o coração um turbilhão de sentimentos.
Daniel se aproximou ao lado de Aella e acompanhou seu olhar. "Esta cidade é pequena", disse. "Você não precisa fazer isso por ele — faça por quem se importa. Às vezes, vale a pena intervir, desde que você saiba onde pisa."
Aella balançou a cabeça. "Daniel, ninguém conhece ele melhor do que eu.
"Ele é um empresário esperto — frio, calculista, sempre pesando o custo-benefício. Coloca o lucro acima de tudo. Mesmo quando não está bem, nunca é tão grave quanto todo mundo pinta."
Ela fez uma pausa, o tom firme. "Alguém tão egoísta e distante como o Tyrone, mesmo que perdesse o mundo inteiro, esse homem daria um jeito de ficar bem."
Naquela mesma noite, Tyrone voltou a Vleka.
Virginia enfim explodiu. Virou-se para Edwin e Ralph, gritando em meio às lágrimas: "A condição do Tyrone é culpa de vocês dois! Depois de tudo o que aconteceu, ainda não conseguem admitir os erros? Querem mesmo empurrá-lo para a morte?"
O rosto de Tyrone se fechou.
Ele mediu cada palavra, a voz de gelo: "Vovô, você vai se arrepender do que disse."
Uma fisgada aguda atravessou seu peito. Ele levou a mão ao coração e se virou, indo às pressas para o banheiro.
Depois que ele saiu, Edwin resmungou: "Se eu não pressionar, ele nunca vai ouvir."
Virginia cravou nele um olhar fulminante. "Edwin, você não percebe? O Tyrone ainda não superou a Aella!"
A sala ficou pesada de tensão.
Após alguns minutos, Raine foi a primeira a notar que algo estava errado. "Por que o Tyrone ainda não voltou?"
Todos trocaram olhares nervosos e correram para o banheiro.
Ralph empurrou a porta. Tyrone estava de pé diante da pia, água escorrendo pelo rosto.
Quando o viu a todos no batente da porta, ele apenas pegou uma toalha de papel, enxugou o rosto e saiu, fechando a porta atrás de si, sem dizer uma palavra.

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