Bastou apenas meio ano. Uma funcionária nova superou o relacionamento deles de dez anos.
Ramires chegou meia hora depois.-
Talvez ele tenha se inteirado da situação com Lúcio; em meio à pressa, ele parecia um pouco em pânico.
Ele tirou o casaco, pendurou no cabideiro e perguntou: — Por que você veio para a empresa de repente?
Olívia retrucou brincando: — Eu não posso mais vir agora?
— ...Não foi isso que eu quis dizer.
Ramires franziu a testa, parecendo querer se explicar, e Olívia empurrou a garrafa térmica para a frente dele: — Esta é a água com mel que a Stella fez para você.
Ao ouvir sobre a filha, Ramires finalmente lembrou que ainda era pai. O resto das palavras travou em sua garganta, e o sofrimento, a culpa e o remorso alternaram em seu rosto.
Ele desviou o olhar de Olívia, desconfortável, e pegou a garrafa térmica: — Obrigado.
— Isso você mesmo diz para a Stella — Olívia continuou cutucando.
— ...Tudo bem.
Ramires abriu a tampa e deu um gole. A água com mel, excessivamente doce, fluiu para o seu estômago. Parecia ter grudado um pouco do amor paternal que estava fragmentado, e ele finalmente se lembrou de se preocupar com a filha.
— O machucado da Stella, está tudo bem?
— O machucado está bem. Nós fomos ao hospital, e o médico prescreveu remédios...
Olívia parou de repente e olhou para ele chocada: — Eu te mandei uma mensagem no Whatsapp noite passada contando. Você não viu?
Ao mencionar a noite passada, Ramires só se lembrou do sexo intenso. Ele não conseguia se lembrar de que Olívia havia mandado uma mensagem no Whatsapp.
— Vi... eu vi.
Ramires bebeu água estrategicamente e resmungou: — Eu estava muito bêbado na hora e não pude te responder a tempo, desculpe.
Ele sequer tinha lido uma linha das mensagens que ela enviou. Mesmo tomando a água com mel preparada pela própria filha, só usava desculpas vazias para fugir da culpa por todo o sofrimento que causou à família.
A decepção de Olívia era evidente, e a raiva e o ódio oprimidos no fundo de seu coração estavam à espreita.
Desde estudar Direito até se tornar advogada, Olívia tinha visto e lidado com muitas pessoas hipócritas e falsas. Ela nunca imaginou que, como as vítimas de seus casos, também seria enganada como uma idiota pela pessoa em quem confiava.
— O joelho da Stella está bem, mas ela está sofrendo psicologicamente. Ela chorou por mais de meia hora ontem à noite, perguntando repetidas vezes se você não voltou porque ela não era boazinha.
— Você passou tantos dias sem voltar e não fez videochamada com ela, o que a abalou muito.
— Quando ela acordou hoje, também perguntou se você tinha voltado ontem à noite. Preocupada por você ter bebido, ela fez questão de trazer a água com mel para você.
A voz de Olívia ficou fria. As palavras que partiam o coração dele também apunhalavam aquela pessoa que, desde a paixonite até o casamento e o nascimento da filha, o amava há treze anos.
Um leve cheiro doce de perfume desconhecido chegou ao nariz de Olívia, e ela ficou imediatamente alerta. Antes que ele pudesse tocá-la, ela se virou fingindo arrumar a tampa da lancheira e falou num tom misto de brincadeira e sinceridade: — Se você realmente sente pena de mim, apareça mais em casa para ajudar a cuidar da nossa vida e da Stella. Você está bem aqui em Cidade H, mas não volta para casa há oito dias. Se as pessoas não soubessem, achariam que você tem outra lá fora.
— Não pense bobagens...
Ramires se explicou instintivamente, mas foi interrompido por batidas na porta.
— Sr. Vicenzo.
Bianca entrou carregando duas xícaras de café: — Fiquei sabendo que temos visita, a Yang me pediu para trazer café.
Ramires franziu a testa, descontente. Pensando que não havia dito a ela que Olívia tinha chegado, não pôde culpá-la e permitiu sua entrada.
Bianca parecia não ter reconhecido Olívia. Ela caminhou direto até lá e colocou uma das xícaras na mesa à frente de Ramires.
E quanto ao café de Olívia, Bianca o serviu na sua frente: — Fique à vontade.
Bianca usava uma maquiagem para o dia a dia, discreta, mas sofisticada, com os cabelos longos soltos, parecendo gentil e comportada. Talvez fosse um hábito pessoal: o dedinho da mão direita, com a qual segurava o café, estava ligeiramente levantado, e as unhas decoradas com diamantes se destacavam bastante.
Exatamente igual à pontinha da unha que apareceu na foto enviada para Olívia na noite anterior.
Assim que ela se abaixou e levantou, o cheiro do perfume adocicado no corpo de Bianca invadiu agressivamente o nariz de Olívia.
Era ela.

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