Encharcado pela chuva, Leonardo sujou o chão limpo do apartamento de Fernanda.
Ele segurou o remédio e a água e ajoelhou-se diante dela em uma perna só.
— Toma o remédio, por favor. — Ele estava implorando.
Fernanda o olhou de cima para baixo. Em três anos, Leonardo tinha mudado muito.
Aquele ar canalha e irresponsável que ele tinha no olhar havia sumido por completo.
Vestindo camisa social e calça de alfaiataria, com o cabelo colado à testa pela chuva, ele exalava uma aura de pena e desolação.
No passado, quando ele queria que ela tomasse remédio, Fernanda fazia birra de propósito.
Leonardo ajoelhava do mesmo jeito, bajulava e, quando perdia a paciência, forçava-a a engolir.
Dando golinhos de água da própria boca para a dela.
Lembrar disso fez o coração de Fernanda ser retalhado. Doía de tirar o fôlego.
Por um breve instante, pareceu que esses três anos não existiam.
Que Leonardo ainda era aquele Leonardo, que se importava com a saúde dela a todo momento e a colocava em primeiro lugar.
E não aquele Leonardo que, enquanto abraçava outra mulher, a empurrou para longe e disse que ela era chata demais.
Trincando os dentes, Fernanda segurou as lágrimas que insistiam em subir.
Ela bateu na mão de Leonardo, afastando a hipocrisia dele. Não queria gastar nem uma palavra.
Leonardo conhecia a teimosia dela. Quando Fernanda batia o pé, ninguém conseguia acalmá-la.
Ele só pôde implorar, com a voz mansa:
— Não faça isso com o seu próprio corpo. Vou deixar o remédio aqui. Quando eu sair, não esquece de tomar.
Fernanda fechou os olhos. Não disse uma palavra.
Em silêncio, Leonardo colocou o copo e os comprimidos ao lado.
Ao ver o rosto absurdamente pálido de Fernanda, sentiu uma dor esmagadora no peito. Ele correu os olhos pelo apartamento modesto, de onde se via tudo de uma vez.
— Aquela nossa casa...
Fernanda não aguentou mais. Elevou a voz:
— Suma!
O que aquela casa tinha a ver com ela?

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