Sérgio Dourado virou-se para o homem encharcado e claramente embriagado ao lado:
— E o seu documento?
Leonardo não estava com ele. Seu olhar cruzou o de Sérgio por uma fração de segundo antes de ele franzir a testa.
— Ficou no carro. Não trouxe.
— Tem o documento digital no celular? Se não, dita o número do CPF.
Leonardo ditou o número. O policial pediu que ele fosse até o corredor e começou a fazer uma série de perguntas: profissão, qual a relação dele com Fernanda, e por que diabos ficava rondando a portaria do prédio tendo atitudes estranhas.
Enquanto isso, Fernanda foi acompanhada pelo outro policial. Ela já tinha colocado um casaco por cima.
Seu estômago queimava. Ela serviu um pouco de água quente e bebeu, sentindo um leve alívio.
O porteiro não parava de falar no fundo. Contou como vinha desconfiando desde aquela noite em que Fernanda foi seguida, e que toda vez que estava no turno, notava um carro de luxo estacionado do lado de fora do prédio.
Disse que o cara era muito bizarro. Comprava cigarro e não fumava, só deixava queimar entre os dedos enquanto passava a noite no carro.
E ainda catava o lixo que Fernanda descartava.
Fernanda levantou os olhos lentamente para a porta.
Lá fora, diante do policial, Leonardo recuperou um pouco da sua habitual postura afiada e imponente.
Então a caixa de papelão que ela tinha largado do lado da lixeira foi recolhida por ele.
Um nó de raiva se formou no peito de Fernanda. Um sentimento confuso que subiu até a garganta, mas acabou se desfazendo no ar.
Ficar brava ou furiosa não tinha mais sentido.
Ela não queria ter absolutamente nenhum envolvimento com Leonardo Soares.
Por isso, quando o policial a chamou de canto para perguntar sobre a relação deles, e se ela precisava ir até a delegacia prestar queixa de outras perseguições, Fernanda negou.
— Contanto que ele nunca mais apareça, por mim está tudo bem.
Os policiais estavam acostumados a lidar com conflitos amorosos. Para eles, era apenas mais um caso de ex-namorado que não aceitava o fim do relacionamento.
Eles registraram a ocorrência, deixaram um comprovante, deram uma bronca severa em Leonardo e deram o chamado por encerrado.
Lá do corredor, Leonardo a encarou em um silêncio teimoso.
Mas, no fim, foi embora.
Fernanda agradeceu aos policiais e ao porteiro pelo trabalho que tiveram.

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