Cada palavra de sua mãe era como uma faca, que não apenas a feria, mas abria seu peito e expunha uma vergonha que Fernanda não conseguia suportar.
Ela não ousava perguntar. Não tinha coragem de saber o que os outros diziam.
Vânia soltou um suspiro pesado.
— No primeiro ano em que você não veio passar o Natal em casa, sua avó e sua tia jogaram tudo na minha cara. Disseram: “Tá vendo? Mulher não serve para nada. De que adianta ser excelente nos estudos, cheia de talentos, se no fim vai querer morrer por causa de um homem?” O que você queria que a sua mãe respondesse?
Nos mais de vinte anos desde que Vânia havia se casado e entrado para a família Cruz, ela sempre precisou engolir o orgulho.
Primeiro, porque a fábrica do seu irmão faliu, e ela precisou implorar a ajuda da família do marido. Segundo, pelo fim patético do relacionamento de Fernanda.
Isso a deixou sem argumentos para se defender de qualquer humilhação.
Fernanda mordia os lábios com tanta força que já deixava marcas. Era a única forma de conter os soluços que queriam escapar de sua garganta.
O carro ficou em silêncio por um longo tempo, preenchido apenas pelo suspiro exausto de Vânia.
Mãe e filha não trocaram mais nenhuma palavra. Quando chegaram em casa, Bruno Cruz percebeu o clima pesado e se preocupou.
— O que foi? O resultado dos exames foi ruim?
— É só uma gastrite crônica causada por má alimentação. É só comer direito e tomar os remédios. — Vânia balançou a cabeça.
Bruno soltou um suspiro de alívio, resmungando.
— Então por que estão com essas caras de velório?
Ninguém respondeu. As duas foram cada uma para o seu quarto.
Pouco tempo depois, Fernanda saiu segurando a bolsa, de cabeça baixa.
— Pai, mãe... Eu vou ter que fazer hora extra no trabalho amanhã. Vou voltar para o meu apartamento hoje. Semana que vem eu venho visitar.
Bruno ficou surpreso.
— Já vai? Mas a sua mãe nem fez o almoço ainda...
— Deixa ela ir. — Vânia saiu do quarto e foi direto para a cozinha.
Ela abriu a geladeira, pegou várias sacolas cheias e algumas marmitas, colocando tudo dentro de uma ecobag.

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