Sérgio Dourado chegou muito rápido.
Fernanda ainda encarava as folhas caídas no chão, perdida em pensamentos, quando ele veio correndo a passos largos da calçada.
Trazia uma sacola de papel na mão.
Fernanda notou que o cabelo dele parecia recém-lavado. A franja caída na testa ainda estava levemente úmida. Parecia um garotão.
— Chegou tão rápido... Por que não secou o cabelo direito? — ela perguntou.
Sérgio ergueu uma sobrancelha e sorriu de lado.
— O tempo de resposta da polícia é padronizado. Eu não ousaria fazer você esperar por motivo nenhum.
Ele se sentou à esquerda dela e lhe entregou a sacola.
— Minha mãe fez bolo. Pediu para eu te trazer um pouco.
Os olhos de Fernanda se arregalaram. Ela pegou a sacola e olhou dentro. Havia um pote de vidro com uma bela fatia de bolo de crepe de manga.
— Comer doces melhora o humor. — Sérgio tirou o pote, abriu a tampa e lhe entregou uma colherinha. — Minha mãe até me explicou a teoria científica por trás disso, mas infelizmente eu não consegui decorar os nomes químicos.
Os lábios de Fernanda se curvaram num sorriso. Ela imaginou que a mãe de Sérgio devia ser uma mulher muito bem-humorada.
O senso de humor dele, com certeza, era herança dela. A família dele devia ser muito feliz.
Fernanda deu uma colherada. O sabor era doce e suave, nada enjoativo. Ela olhou seriamente para Sérgio.
— Tá uma delícia.
Sérgio deu um sorriso contido. Seu olhar se demorou nos olhos ainda vermelhos de Fernanda por alguns segundos, até que ele finalmente perguntou:
— Fernanda Cruz... Por que toda vez que eu te vejo, você parece que vai chorar?
Na primeira vez, na estação de esqui, o rosto teimoso e os olhos vermelhos deixavam claro o quanto ela estava magoada.
Na segunda, no apartamento dela, sendo assediada pelo ex-namorado... ela provavelmente iria chorar também se ele não estivesse lá.
Na terceira vez não. Mas na quarta, quando a levou para casa, ela encontrou os pais e ficou com aquela expressão de quem queria chorar, mas não tinha coragem.
E agora, era óbvio que ela já tinha chorado.

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