E então... eu conheci ele.
Nossa pai trabalhava muitos anos pro pai dele, e finalmente conseguiu a promoção que tanto queria. fomos convidados pra jantar na casa deles.
Quando o carro parou diante dos portões de ferro batido, eu perdi o fôlego. A casa não era apenas uma construção, era um monumento.
Parecia um cenário de sonho, um contraste violento com a reclusão cinzenta em que eu me escondia dentro do meu próprio quarto.
Minha mãe e o meu pai entraram na frente, recebidos com abraços e risos. Clarisse, que teve um imprevisto de última hora e só chegaria depois.
Estava sozinha, caminhando devagar pelo hall de entrada, me sentindo como uma intrusa em um palácio de vidro.
Foi então que o pai de Ricardo se aproximou de nós, acompanhado por ele.
— Este é meu filho, Ricardo.
Levantei o olhar, e o mundo simplesmente emudeceu.
Ricardo estava parado, tinha ombros largos sob sua camisa escura, criando uma aura quase mística ao redor dele.
Ele não era apenas um homem bonito, ele tinha uma presença que parecia ancorar o chão sob meus pés. Quando seus olhos, profundos e atentos, encontraram os meus, senti um choque que percorreu minha espinha, um reconhecimento silencioso que eu não sabia explicar.
Ele estendeu a mão, e o simples movimento pareceu rasgar o tecido da minha realidade.
Naquele instante, só conseguia ver aquele par de olhos que me olhavam como se eu fosse a única pessoa naquela sala de gigantes.
Meu coração deu um solavanco, e o ar que eu puxei veio carregado de sentimento que eu nunca tinha provado antes.
Eu nunca imaginaria que, sete anos depois... era exatamente assim que eu estaria com ele, ou que depois daquele jantar, minha vida se tornaria reflexo de todos os anos, que vivi desde a entrada naquela casa. A casa que pertencia a Clarisse:
.....
DIAS ATUAIS:
Sete anos que agora cabiam em quatro folhas de papel A4.
Eu olhava para o documento sobre a mesa de carvalho escura de Ricardo e sentia o peso de cada dia, de cada hora em que respirei o mesmo ar que ele, esperando por um olhar que nunca veio.
O papel do divórcio estava ali, branco, frio e assinado. A tinta da rubrica dele ainda parecia fresca, mas a decisão, eu sabia, fora tomada no instante em que ele colocou a aliança no meu dedo, sete anos atrás. Ele nunca esteve lá.
E ele nunca esteve lá, não de verdade.
Eu passei a vida mendigando afeto, como quem junta migalhas debaixo de uma mesa farta onde eu nunca fui convidada a me sentar.


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