Os anos passaram, e o que era travessura de criança se transformou em uma estratégia refinada.
Na adolescência, a nossa casa em se tornou um palco onde Clarisse encenava sua perfeição. Ela era a luz, eu a sombra que ela projetava para parecer mais brilhante.
Minha mãe e o tio meu tio viviam em uma espécie de transe. Eles não viam a Clarisse que eu via.
Para eles, ela era a menina resiliente que, mesmo sem a mãe biológica, se esforçava para ser a melhor em tudo. Eu? Eu era apenas a "menina difícil".
Me lembro de quando os primeiros rapazes começaram a aparecer. Clarisse não queria apenas ser notada, ela precisava ser a preferida.
Se algum colega de escola demonstrava interesse por mim, ela entrava em um modo de operação silencioso. Ela não o atacava, ela me sabotava.
— A Paloma é tão sensível, né?
ela dizia para os meus amigos, com aquele tom de falsa preocupação.
— Às vezes ela fica dias trancada no quarto, sem falar com ninguém. A gente fica até com medo de como ela vai reagir às coisas.
Aos poucos, as pessoas se afastavam de mim, com receio da "instabilidade" que ela inventava.
Houve uma noite, perto do meu aniversário de 12 anos, que marcou o fim da minha inocência sobre quem ela realmente era.
O tio, tinha me dado um colar, uma joia simples que pertencera à minha avó paterna. Foi a primeira vez que senti que ele estava me vendo de verdade, ele até me deixou chamar ele de pai, ele me viu de verdade e não apenas como a sombra da Clarisse.
Naquela mesma noite, o colar sumiu.
— Você viu o meu colar, Clarisse?
perguntei, tentando manter a calma enquanto revirava minhas gavetas.
Ela estava sentada na cama, pintando as unhas com uma indiferença que me dava calafrios.
— Não, Paloma. Mas você sabe como você é desorganizada. Deve ter perdido por aí.
Procurei por dias. Até que, durante um jantar, nosso pai parou de comer e apontou para o pescoço da Clarisse. Lá estava ele. O brilho da prata contra a pele dela parecia um deboche.
— Clarisse, esse não é o colar da Paloma?
ele perguntou, confuso.
Ela arregalou os olhos, levando a mão ao peito como se tivesse sido atingida por um raio.
O choro veio em segundos, mestre como sempre.
— Pai... eu... eu achei no lixo! Estava embrulhado num papel amassado. Eu achei que a Paloma tivesse jogado fora porque disse que era velho e feio... eu só queria guardar uma lembrança da vovó também, já que não tenho nada da minha mãe aqui.
Minha mãe imediatamente a abraçou.
— Oh, querida... Paloma, como você pôde ser tão ingrata? Jogar fora um presente?
Eu não conseguia nem falar.
A audácia dela de me roubar e ainda me fazer parecer a vilã diante da minha própria mãe era quase admirável, de tão perversa.



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