Ele começou a contar o que sabia de maneira fragmentada, oferecendo detalhes muito mais precisos do que em qualquer outra ocasião anterior, além de adicionar diversas especulações pessoais.
— Aquele homem... Eu nunca vi o seu verdadeiro rosto. Todos os nossos contatos eram feitos através de telefones criptografados ou intermediários. A voz era sempre alterada, então era impossível decifrar a sua idade. No entanto, ele conhecia a família Oliveira, a nossa família Costa e até outras famílias influentes desta cidade como a palma da mão. Especialmente... a família Barreto. — Chegando nessa parte, Gervásio ergueu os olhos e lançou um olhar rápido para Jocelino, abaixando a cabeça logo em seguida.
— Ele me procurou pela primeira vez há muitos anos. Naquela época, Amália ainda era uma adolescente e era tratada como um tesouro por Gustavo e a esposa. Ele disse para eu dar um jeito de arranjar um casamento entre ela e o meu filho. Na hora, eu achei um absurdo. A saúde do meu filho... já não era boa desde aquela época. Por que a família Oliveira concordaria com isso? Mas ele disse que daria um jeito de fazer com que a família Oliveira aceitasse, e que esse casamento traria enormes benefícios para o futuro da família Costa. Além disso, aquele homem misterioso sempre teve uma atitude muito bizarra em relação à criança que crescia no ventre de Amália. — A garganta de Gervásio pareceu se apertar, mas ele continuou. — Na época, o Marcelo não queria ter aquele filho e pretendia obrigar a Amália a fazer um aborto. Mas foi ele quem me ligou, exigindo que a criança nascesse e afirmando que cuidaria de tudo. Eu não sabia por que ele queria aquele bebê, mas tinha a vaga sensação de que Amália não era apenas um peão para ele. A forma como ele exigiu proteger a criança... não parecia o tipo de tratamento dado a uma mera ferramenta.
Gervásio levantou a cabeça. À medida que falava, parecia começar a organizar uma espécie de linha de raciocínio lógico, preenchido por um pavor repentino, como se tivesse percebido a verdade tarde demais.
— Eu passei muito tempo pensando nisso depois. A atitude dele com Amália... aquela proteção indulgente que beirava a cumplicidade, movida por algum propósito oculto. Será que isso acontecia porque... Amália é da família dele? Ou talvez... seja a própria filha dele?
Afinal, todos no círculo da elite sabiam que Amália não era a filha biológica da família Oliveira. E o grande responsável pela troca entre Amália e Aeliana anos atrás havia sido justamente o verdadeiro pai de Amália.
O único detalhe era que o pai de Amália havia desaparecido completamente após realizar aquela troca perversa.
— Tudo o que ele fez pode ter sido apenas para pavimentar o caminho para a Amália? Ou então, usar a Amália e aquela criança para alcançar algum propósito ainda mais obscuro? É apenas isso que eu sei. — Completou Gervásio.
Essa especulação fez com que Aeliana e Jocelino se olhassem novamente. Ambos viram uma enorme tensão refletida nos olhos um do outro.
Se Amália fosse realmente de sangue daquele homem misterioso, muitas das coisas que ocorreram passariam a ter uma motivação muito mais lógica.



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