Jocelino pareceu acordar de um transe, exibindo uma mistura perfeitamente calculada de constrangimento e pânico, e virou-se às pressas para Fabíola:
— Sra. Saramago, peço desculpas. Meu sogro... ele tem um temperamento um pouco explosivo. Por favor, não leve a mal.
Dizendo isso, fez menção de se virar para impedir Wallace.
Foi nesse momento que a porta do outro lado do carro também se abriu. Aeliana desceu. O vento noturno balançava a barra de seu casaco e seus longos cabelos. Seu rosto parecia ainda mais pálido sob as luzes da rua, e seus lábios estavam sem cor.
Ela não disse nada de imediato. Apenas olhou silenciosamente para Jocelino e, em seguida, lançou um olhar frio para Fabíola, que já apresentava uma expressão amargurada.
Quando “Narciso” viu Aeliana, seus olhos brilharam na hora, como se tivesse encontrado o seu porto seguro. Ignorando as reclamações de Wallace e o constrangimento de Fabíola, correu alguns passos na direção dela. O tom em sua voz carregava uma preocupação e angústia tão reais que não pareciam fingimento.
— Selena! O que faz aqui? Não pedi para descansar no hotel? O vento da noite está forte, sua saúde frágil não vai aguentar!
Com uma naturalidade extrema, ele esticou o braço, envolveu a cintura fina de Aeliana e a puxou gentilmente para seus braços, usando o próprio corpo para protegê-la do vento. O movimento era íntimo e de quem estava acostumado.
Só então pareceu se lembrar da presença de Fabíola. Virando a cabeça para apresentá-la, seu tom mostrava a satisfação e o orgulho de alguém que pensava “com uma esposa dessas, tenho tudo o que preciso na vida”:
— Sra. Saramago, permita-me apresentar minha esposa, Selena.
— Selena, esta é Fabíola Saramago.
A frase soava educada, mas o braço envolvendo a cintura de Aeliana e aquele olhar de pura devoção que dirigia a ela deixavam absolutamente claro quem era a pessoa mais importante em sua vida.
O sorriso no rosto de Fabíola endureceu, e seus olhos caíram sobre aquele rosto, que, apesar de pálido, tinha traços delicados.
À primeira vista, era um rosto gracioso, embora quase assustadoramente sem cor pela palidez. Os traços não eram vibrantes, mas carregavam uma elegância suave, como uma paisagem coberta por uma garoa serena.
Com o rosto travado, Fabíola cumprimentou Aeliana.
— Sra. Saramago. — Aeliana ergueu o olhar. A voz saiu suave e macia, com um tom perfeitamente fraco. Ela deu um leve aceno de cabeça como resposta. Sua postura era a personificação de alguém mimada e vulnerável, alheia aos problemas do mundo.
Logo em seguida, Aeliana virou-se com extrema naturalidade. Com os dedos pálidos, puxou gentilmente a manga de “Narciso”, ergueu o rosto, apertou as sobrancelhas e disse, com a voz embargada:
— Jocelino, o vento lá fora está muito frio e estou com um pouco de tontura... Vamos para casa mais cedo, sim?
A postura de dependência e aquele tom íntimo separaram os dois do resto do mundo instantaneamente.
“Narciso” imediatamente olhou para baixo. Seu olhar focou nos lábios pálidos de Aeliana enquanto os braços ao redor dela se apertavam.
— Tudo bem, vamos para casa agora mesmo.

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