Denise fez um bico.
— Todo santo dia a mesma rotina: trocar curativo, ouvir bronca de paciente... Comparar com a vida dos outros dá até raiva.
— Mas...
Ela mudou de assunto, num tom misto de inveja e curiosidade.
— Ela até que é bonita, delicada, tem presença... Só que esse jeito de se vestir não é básico demais?
— Esse terno, esse cabelo... passa uma sensação tão séria e antiquada. Parece diretora de escola. Só de olhar eu já fico com culpa de não ter feito a lição de casa.
— Ah, você não entende nada.
A Sra. Sousa respondeu com ar de experiência, dando um tapinha de leve no braço de Denise.
— Ela trabalha com pesquisa pesada e ainda por cima em neurocirurgia. Fica o dia inteiro lidando com as partes mais delicadas e complexas do cérebro. Você acha que ela ia andar por aí rindo e brincando igual à gente?
— Isso se chama rigor.
— Entendeu o que é rigor?
— Se ela aparecesse toda enfeitada, perfumada a ponto de dar para sentir do outro lado da rua, aí sim seria estranho. Que paciente ou familiar ia se sentir seguro deixando o cérebro de alguém nas mãos dela?
Ela fez uma pausa, mudou o tom e abaixou ainda mais a voz, olhando ao redor com cautela.
— Mas, falando sério, o jeito como o Sr. Almeida a tratou hoje foi um pouco exagerado, não acha?
— Foi buscar pessoalmente, veio acompanhando, conversou o caminho todo sem parar de sorrir. Eu trabalho aqui há quase dez anos. Já vi muito especialista e professor passar por este hospital. Consigo contar nos dedos de uma mão quem recebeu esse tipo de tratamento VIP dele.
— Pelo visto, essa dra. Porto não é pouca coisa... sabe-se lá o que mais existe por trás disso.
— O que mais? — Os olhos de Denise se arregalaram.


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