— Sr. Marques? — Aeliana repetiu, fingindo forçar a memória. — É aquele senhor... que parece bem rigoroso? Acho que uma vez vi de longe, lá no térreo, um homem cercado de seguranças. Não sei se era ele.
— Pode ser! — Lidiane se animou. — O Sr. Marques quase não aparece, mas sempre que vem, a presença dele é intimidadora. Até o diretor o trata com a maior reverência. Todos os planos de tratamento e medicações precisam da aprovação dele.
— A Vivian se controla bastante na frente dele, mas assim que o Sr. Marques vira as costas, ela volta a ser como antes. Parece... que tem duas caras.
Todas falaram uma por cima da outra, pintando o retrato de uma "Vivian" superficialmente educada, mas essencialmente arrogante, de pavio curto e que só baixava a guarda na presença de uma pessoa específica.
Aeliana escutava em silêncio, mas sua mente trabalhava a todo vapor.
Sim, essa era a verdadeira Amália.
Antes, na família Oliveira e diante de Marcelo Costa, ela precisava atuar como a garota gentil, bondosa e frágil, que nunca superava a herdeira verdadeira, tudo para conquistar simpatia e favoritismo.
Mas agora, com a ruína da família Costa e a dissolução da família Oliveira, ela havia retornado ao lado do seu suposto "pai biológico". Com o novo poder em mãos, não havia mais motivo para continuar com a farsa de mocinha indefesa.
Sua arrogância e crueldade, reprimidas por tanto tempo, provavelmente estavam se manifestando de forma ainda pior. Por trás daquela doçura falsa, havia alguém profundamente cruel — essa era sua verdadeira natureza.
Agora, trancafiada em uma mansão, apesar de todo o luxo material, a perda de liberdade e a depressão emocional, somadas aos desconfortos da gravidez, certamente tornaram seu temperamento ainda mais instável.
Quanto ao "Sr. Marques", era evidente que ele era quem a controlava. O fato de Amália ser obrigada a se conter na frente dele indicava que o homem era ou um braço-direito do seu pai biológico, ou até o próprio homem por trás de tudo, exercendo controle absoluto sobre ela.
O jantar terminou num clima leve. As garotas saíram muito satisfeitas após dividirem uma ótima refeição e boas fofocas, encarando tudo apenas como uma divertida confraternização entre colegas.
Aeliana despediu-se delas com um sorriso.
Só quando se afastou do restaurante, com a brisa noturna batendo em seu rosto, é que o sorriso gentil em seus olhos se desfez lentamente, transformando-se num brilho frio e perspicaz.
Leonardo...
Vivian...
Jocelino não se moveu.
— A Sra. Saramago não disse que ia me levar a um hotel para falarmos de negócios? Isso aqui não me parece muito com um hotel.
Diante do questionamento de Jocelino, Fabíola não perdeu a pose em momento algum.
— Meus amigos decidiram mudar o local de última hora. Vamos conversar aqui.
— O que tem de tão bom em conversar num hotel? O jogo que rola aqui é muito mais interessante do que beber chá e discutir fornecedores. Por quê?
— O Sr. Porto está com medo?
Enquanto falava, o olhar analítico de Fabíola varreu Jocelino de cima a baixo, tentando encontrar algum sinal de pânico, ansiedade ou ganância em seu rosto.
E foi exatamente como ele previra.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Despertar Depois dos 1460 dias