O Sr. Soberano e o homem de óculos olharam para Jocelino. Os olhos do Sr. Soberano demonstravam dúvida e impaciência, enquanto o outro o analisava com curiosidade.
O olhar de todos convergiu para ele.
Narciso pareceu assustado com toda a atenção e ficou ainda mais desajeitado, acenando freneticamente com as mãos:
— Eu... eu não consigo... Sra. Saramago, eu não entendo nada disso...
Contudo, Fabíola não lhe deu chance de recuar. Os lábios vermelhos se curvaram ligeiramente num tom suave, mas implacável.
— É só dar uma olhadinha, o Sr. Porto não precisa ficar nervoso. A sorte do Sr. Soberano não está boa, talvez um palpite seu vire o jogo, não acha?
— Você não vai ser capaz de... me negar esse pequeno favor, vai? — O tom de sua última frase subiu levemente, lançando um olhar sugestivo para Jocelino e depois para o Sr. Soberano.
Jocelino riu friamente por dentro.
Aquilo estava longe de ser um pedido inofensivo. Fabíola o estava usando descaradamente como uma peça de xadrez para testar o Sr. Soberano e o homem de óculos ou, pior, queria ver aquele "chefe caipira do País A" fazer papel de ridículo na mesa, facilitando assim que ela o manipulasse depois.
Jocelino via tudo com clareza, mas forçou uma expressão ainda mais patética. Olhou de Fabíola para a mesa e, por fim, como se tomasse coragem, deu passinhos curtos até ficar atrás do Sr. Soberano, esticando o pescoço e analisando as cartas com cuidado.
Na mesa, a carta revelada do Sr. Soberano era um 9. A carta virada não podia ser vista.
A carta revelada da banca era um Valete.
O Sr. Soberano estava hesitando se pedia outra carta ou não.
Pela estratégia normal, com uma pontuação baixa, a jogada certa seria pedir outra. Mas, como já havia perdido várias vezes seguidas, ele estava sem confiança.
Chegou a pensar em jogar aquela última rodada e voltar para casa dormir.
Porém, para sua surpresa, Fabíola trouxera aquele idiota que surgira do nada para se meter na partida.
Contudo...
O olhar do Sr. Soberano desviou para Fabíola, sempre tão imponente e orgulhosa.
Ele deu uma risadinha interna. Com a arrogância de Fabíola, que sempre se achava superior a todos, será que ela realmente traria algum especialista?
Provavelmente, era só mais um novo-rico vindo do País A, sem refinamento nenhum, que a Srta. Saramago arrastou para servir de piada ou capacho. Com preguiça de continuar analisando, voltou a atenção para suas próprias cartas, calculando se tentava a sorte ou jogava a toalha.
Mas, quem diria, Fabíola jogou aquele "idiota" bem em sua frente e ainda pediu para ele "olhar as cartas"?
O Sr. Soberano ficou ainda mais irritado.
Mas que inferno era aquilo? Pedir para um leigo lhe dar palpites? Aquela Fabíola estava querendo fazê-lo de palhaço?
Ele engoliu a raiva e não a xingou diretamente, mas sua expressão ficou ainda mais fechada. Seu olhar em direção a Narciso carregava uma desconfiança e impaciência indisfarçáveis. O que um zé-ninguém como aquele seria capaz de enxergar?

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