Sr. Soberano não esperava que, além da falta de noção de Fabíola, aquele idiota também não tivesse a menor ideia de como as coisas funcionavam. Intimidado por Fabíola, ele realmente ia tentar ajudá-lo a analisar as cartas.
Olhando para aquela figura covarde, Sr. Soberano pensou que só podia ser uma piada.
Deixou para lá. Ao ver que Narciso realmente começava a olhar as cartas com ares de quem entendia, Sr. Soberano nem se deu ao trabalho de discutir. Pensou que, se ele queria olhar, que olhasse. De qualquer forma, a probabilidade de perder aquela rodada era enorme; pelo menos, serviria para não fazer desfeita a Fabíola.
Quem diria que aquele sujeito de aparência simplória e boba, ao analisar o jogo, até parecia saber o que estava fazendo.
Sr. Soberano quase se deixou enganar e não pôde deixar de espiar pelo canto do olho.
A expressão de ingenuidade e constrangimento no rosto de Narciso havia diminuído consideravelmente, sem que se percebesse quando. Ele não ficou gritando ou dando palpites aleatórios como um espectador comum. Na verdade, ele mal olhou para a carta virada para baixo de Sr. Soberano; seu olhar... passou rapidamente pelas mãos do crupiê e varreu as cartas descartadas que já estavam expostas na mesa.
Por fim, sua visão pareceu pousar por um breve instante na pequena montanha de fichas acumuladas na frente do homem de óculos e nos dedos dele, que tamborilavam na mesa de forma aparentemente casual, mas num ritmo que parecia calculado.
Foi apenas um instante.
Tão rápido que Sr. Soberano duvidou da própria visão.
Todo o processo não durou mais que dois ou três segundos.
Então, ele recuou e sussurrou para Sr. Soberano:
— Sr. Soberano, esta rodada... não peça mais cartas.
— Não pedir?
Sr. Soberano ficou atônito e quase soltou um palavrão:
— Parar com nove pontos? Você ao menos sabe jogar isso?
Sua irritação subiu na mesma hora.
O jogo de Vinte e Um, trocando em miúdos, era simplesmente sobre quem chegava mais perto dos vinte e um pontos sem estourar o limite.
Meio desconfiado, Sr. Soberano olhou novamente para o seu lamentável monte de fichas. Por fim, cerrou os dentes e acenou para o crupiê:
— Tudo bem! Vou escutar esse rapaz só dessa vez! Eu não quero mais cartas!
Que se dane! Era tudo ou nada! Afinal, já tinha perdido quase tudo mesmo!
Ao dizer que não queria mais, ele mesmo sentiu o quão absurdo aquilo soava.
Os outros espectadores ao redor da mesa também demonstraram surpresa ou um olhar de quem esperava para rir da desgraça alheia. Fabíola cruzou os braços, apertando levemente os lábios vermelhos, com um olhar que agora tinha um toque de curiosidade. O homem de óculos ajeitou a armação; o sorriso discreto no canto de sua boca se aprofundou, como se já visse as últimas fichas de Sr. Soberano sendo varridas para o seu próprio bolso.
O crupiê, sem esboçar qualquer emoção, virou a carta fechada.
Era um seis.
Somado ao valete que já estava exposto, a pontuação atual da banca era de dezesseis pontos.

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