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Despertar Depois dos 1460 dias romance Capítulo 1499

Fabíola não apenas não recuou, como ergueu ainda mais o queixo, com uma crueldade quase infantil e a determinação de quem já se considerava no controle.

— Me comportar?

— E por que eu deveria me comportar?

— Narciso, eu gosto de você, quero te beijar. O que há de errado nisso?

— Narciso, pare de fingir! Eu não acredito que você não sinta absolutamente nada por mim!

Jocelino já não queria continuar nem mais um minuto naquela situação, muito menos permitir que aquela farsa avançasse.

— Sra. Saramago, esse seu “gostar”, eu não posso aceitar.

— Não se esqueça de que eu já tenho uma esposa. Eu a amo profundamente e, nesta vida, só amarei a ela. É absolutamente impossível que eu faça qualquer coisa para traí-la.

— As palavras que a senhora acabou de dizer, vou fingir que não ouvi. Por favor, não toque mais nesse assunto no futuro e, por favor... mantenha a compostura.

O que mais irritava Fabíola era ver a ternura e a convicção naturais que surgiam no rosto dele sempre que mencionava aquela “esposa”.

Como se aquela mulher fosse o mundo inteiro dele, uma presença inabalável diante de qualquer outra pessoa.

Toda vez que ela percebia isso, sentia como se uma agulha lhe perfurasse o coração — uma sensação azeda, amarga, acompanhada de um ciúme e um rancor difíceis até de nomear.

O que aquela mulher doente tinha de tão especial?

Ela, Fabíola, era linda, elegante e vinha de uma família excelente. Aquela inválida não servia para nada além de ser um fardo. Como era possível que ela estivesse perdendo para alguém assim?

Fabíola curvou os lábios num sorriso de desprezo, e os cantos dos olhos e das sobrancelhas cuidadosamente maquiados assumiram a arrogância e o senso de superioridade natural de uma verdadeira filha da família Saramago.

Endireitou as costas e retomou a sua postura habitual de superioridade, como se a tentativa vergonhosa de forçar um beijo segundos antes jamais tivesse acontecido.

— E daí que você tem esposa?

No entanto, por trás daquela fachada afetuosa e tocante, seu coração era pura frieza e cálculo.

Amante?

Aquilo era apenas uma medida provisória para se aproximar dele e fazer Narciso baixar a guarda.

Como Fabíola, a Srta. Fabíola da família Saramago, poderia realmente se contentar em ser a segunda mulher de um homem? Ainda mais atrás de uma mulher fraca e doente, inferior a ela em todos os aspectos?

Quando enfim o conquistasse e o tornasse completamente dependente dela, quando ele já estivesse integrado à família Saramago, ou quando ela finalmente se tornasse a legítima “Sra. Porto”...

Aí, sim, seria ela quem daria as ordens.

Aquela irritante Selena Rabelo não passava de uma mulher sem poder nem influência, doente e dependente de homem. Não seria a coisa mais fácil do mundo para a família Saramago fazê-la simplesmente desaparecer?

Acidentes aconteciam todos os dias na Vila das Nuvens Cinzentas. Quem se daria ao trabalho de investigar a fundo a morte de uma mulher insignificante?

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