A Srta. Saramago claramente estava ali para arrumar confusão e descarregar a raiva. Muito provavelmente tinha descoberto a verdadeira identidade de “Narciso”, sentiu-se feita de idiota e agora estava com o orgulho ferido.
Talvez deixá-la entrar, desde que sob supervisão, para xingar um pouco e aliviar a tensão, não trouxesse problemas tão graves, contanto que ela não partisse para agressão física nem causasse um tumulto maior.
No fim das contas, era um conflito interno entre pessoas do mesmo círculo, e isso era bem melhor do que um escândalo na porta da delegacia ou ela voltar para casa e reclamar com o pai.
Pensando assim, o Sr. Almeida cerrou os dentes discretamente e forçou um sorriso resignado.
— Srta. Saramago, por favor, não se exalte. Mantenha a calma.
Ele falou baixando involuntariamente o tom de voz, quase como se estivesse negociando.
— Vamos fazer o seguinte... em respeito à família Saramago, vou abrir uma exceção hoje e permitir que conversem.
— Mas já aviso: esta visita está fora das normas. O tempo será curto. Vou lhe conceder apenas alguns minutos com ele, certo?
— E preciso que me prometa uma coisa: apenas olhe, diga o que tiver de dizer e não perca a cabeça. Pense nas consequências, está bem?
— Caso contrário... minha situação vai ficar muito complicada.
Ele já estava burlando as regras. Tudo o que queria era acalmar a encrenqueira da Srta. Fabíola e mandá-la embora o quanto antes.
Fabíola soltou um bufado, o que valeu como resposta.
Seguindo as instruções do Sr. Almeida, ela foi escoltada até a cela onde Jocelino estava detido temporariamente.
Através das grades, avistou aquele homem que lhe parecia, ao mesmo tempo, tão familiar e tão estranho.
Jocelino vestia o uniforme padrão da detenção, mas não parecia nem um pouco abatido.
Estava sentado, encostado na parede, numa postura surpreendentemente relaxada, como se estivesse apenas descansando num lugar um pouco desconfortável.
Ao ouvir os passos, levantou a cabeça. Quando viu que era Fabíola, um leve traço de surpresa passou por seus olhos, mas logo sua expressão voltou a ficar serena como a superfície imóvel de um lago.
Ele ergueu levemente as sobrancelhas, sem parecer particularmente surpreso com a visita.
Ao ver toda aquela calma e lembrar do estado de desespero e agitação em que tinha chegado ali, a raiva de Fabíola ferveu ainda mais.
Ela correu até as grades, agarrou o ferro frio com as mãos e fixou no prisioneiro um olhar assassino. Sua voz tremia de ódio.
Jocelino soltou um risinho desdenhoso.
— E tudo bem se arrepender. Se queria o lugar de volta, bastava pedir. Não é como se eu precisasse de um cassino.
— E olha só onde fomos parar. Não sei em que momento ofendi a família Saramago, mas vocês chegaram ao ponto de me denunciar à polícia!
Jocelino ignorou completamente o assunto da própria identidade e rebateu Fabíola com a narrativa que já tinha sido construída antes.
Ao ver que ele continuava se recusando a admitir a verdade e mantinha a farsa descaradamente, Fabíola bateu o pé, explodindo de frustração. Seus olhos ficaram vermelhos de novo.
— Você ainda está fingindo!
— Jocelino! Seu mentiroso! Canalha!
— Você fez a família Saramago inteira de idiota! Achou divertido, foi?!
Desde criança, ela sempre teve tudo o que queria. Nunca, em toda a sua vida, alguém ousara manipulá-la ou brincar com ela daquela forma tão baixa.

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