Arrancado violentamente da sua imersão, Cícero varreu o olhar da divindade ríspida para a parasita pendurada em seu braço.
A inspeção durou alguns segundos carregados de tédio e repulsa camuflada.
Um balanço de cabeça sutil e negativo foi a única e miserável resposta que ela obteve.
O faro treinado da reitoria identificou o tubarão financeiro atravessando o saguão, abandonando imediatamente as discussões acadêmicas para bajulá-lo.
O reitor aproximou-se esfregando as mãos com subserviência explícita:
— É uma honra inestimável respirar o mesmo ar que o formidável Sr. Machado. A sua figura imponente superou até as descrições mais generosas da imprensa!
Apesar de governar o mundo material, Cícero reservava um resquício de diplomacia cívica aos guardiões da ciência e da educação.
Um aperto de mãos firme e treinado selou o protocolo de polidez:
— O senhor é gentil em demasia. Pisar nos domínios do vosso conhecimento é um privilégio singular para mim.
O ego acariciado do reitor infundiu-lhe uma euforia desastrada:
— Minha nossa, se as paredes tivessem me alertado da vossa ilustre visita, um convite caligrafado em ouro teria sido entregue pessoalmente em vosso escritório.
O homem aprumou o paletó e sinalizou o caminho:
— Façamos o seguinte: permita-me escoltá-lo até a fileira dos patronos de honra para discutirmos os rumos da nossa instituição.
O radar de Cícero realizou uma última varredura silenciosa e sôfrega pelo rosto de Eduarda antes de acatar o convite oficial com um aceno de cabeça.
Aproveitando os flashes imaginários da mídia corporativa, Weleska laçou o cotovelo do magnata como uma coleira de submissão territorial.
O raio-x mundano do reitor decifrou a jogada de xadrez sexual em fração de segundos.
Com a destreza de um garçom da alta sociedade, o acadêmico dobrou as suas reverências:
— Vejo que o senhor não brilha sozinho esta noite. Acompanhem-me, providenciarei as poltronas centrais imediatamente para o casal.
O casal de ouro do capitalismo escorregou pelos corredores atapetados sob uma blindagem de olhares corteses e invejosos.
A plateia não precisava de um tradutor para interpretar a performance teatral de ostentação.
A exibição gratuita de domínio era a assinatura de Weleska atestando que ela habitava o pedestal principal.
A vulgaridade daquela manobra predatória soava como uma sirene de mau gosto.
A pele emocional de Eduarda já havia engrossado a ponto de testemunhar aquele circo decadente sem piscar ou sangrar.
Ambos haviam despencado na escala de relevância da sua existência a zero absoluto.
Apenas um buraco negro de apatia e entorpecimento consumia os seus olhos castanhos perante a cena.
Emerson rasgou a teia do silêncio com um sussurro confuso e protetor:
— Eduarda, por que os corredores do seu passado se cruzam com o dono do Grupo Machado?
As íris opacas da colega mascaravam as marcas de uma guerra secreta, enlouquecendo a intuição de Emerson.
Jogar cartas falsas na mesa de um homem com moralidade ilibada era um desaforo imerecido.
A luz da verdade devia brilhar incondicionalmente para aqueles que lhe estendiam o coração limpo.
A granada explodiu com a frieza de um relatório meteorológico:
— O Sr. Machado ostenta o papel jurídico do meu matrimônio. Mas garanto que assinaremos os papéis do divórcio em breve.
Nomeá-lo como cônjuge perante o universo era engolir um oceano de brasas.
Nas crônicas do amanhã, aquela patente macabra seria exterminada para sempre.
A mancha escura de "ex-marido" seria o único obituário daquela união sombria.
Um raio paralisante atingiu o peito de Emerson com violência nuclear.
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