O assistente virtual do veículo ativou-se novamente, com a voz falhando devido às avarias:
— Olá, os... os radares indicam que o clima na região de Porto de Safira transformou-se num... num evento de chuva extrema e prolongada, então peço que abandone a área o mais... mais rápido possível...
Um deslizamento de terra monstruoso engoliu a estrutura.
A terra encharcada cedeu sob o peso metálico, arrastando o chassi suspenso para dentro de uma cratera profunda e prendendo a carroceria numa armadilha de lama e aço.
Como se o primeiro golpe não bastasse, a gravidade impulsionou a caminhonete mais uma vez contra o capô destruído do carro esportivo branco.
A força bruta daquela segunda colisão resgatou a consciência estilhaçada de Eduarda.
Ela reuniu forças hercúleas para abrir uma das pálpebras, enquanto a outra permanecia selada por um líquido espesso e morno que obscurecia a sua visão.
O torpor espalhado por seus músculos evoluiu brutalmente para uma agonia indescritível, como se milhares de agulhas incandescentes perfurassem cada centímetro de sua pele e de seus ossos.
A dor atroz a seduzia a fechar os olhos e abraçar a escuridão eterna, mas o instinto primitivo de sobrevivência obrigou-a a trincar os dentes e lutar pela lucidez.
Ela ordenou que o seu corpo se movesse, apenas para constatar que a paralisia reinava sobre os seus membros, deixando-lhe apenas um leve formigamento na mão direita.
Movendo-se através do inferno de dor, Eduarda esticou os dedos trêmulos em busca do aparelho celular que deveria estar em seu corpo.
A sua busca desesperada não encontrou metal ou vidro, mas mergulhou em poças de um calor visceral, tingindo as suas unhas com um vermelho macabro e aterrorizante.
O labirinto de ferimentos em seu corpo tornava impossível rastrear a origem daquela hemorragia enquanto a sua mente lutava contra o chamado tentador do sono profundo.
Guiada pela urgência da morte iminente, ela esticou o braço para ativar o painel avariado do carro e esmagou o botão de emergência com as últimas gotas de sua energia.
O assistente virtual obedeceu ao comando letal, engasgando-se com a fiação destruída:
— Iniciando... iniciando chamada para o seu contato de emergência.
Longe dali, na sala VIP, Weleska admirava a sua nova manicure com tédio, até que a tela do celular esquecido por Cícero sobre a mesa acendeu subitamente.
Ao tomar o aparelho nas mãos, as letras que formavam o nome de Eduarda saltaram em evidência na tela luminosa.
As engrenagens cruéis giraram na mente de Weleska, convencendo-a a atender a ligação apenas para despejar a sua arrogância sobre a rival derrotada.
Ela atendeu com um ar de superioridade entediada:
— Alô?
Contudo, os alto-falantes reproduziram uma síntese robótica desprovida de emoção humana.


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