Mas o que ele sempre ignorou foi que, mesmo a dócil e compreensiva Eduarda, no seu íntimo, sempre teve essa tenacidade inabalável. Ela só havia se escondido por amor.
Cícero se levantou, mas continuou sem recolher o convite azul marinho do baile da Fundação.
— Vou discutir o assunto com o vovô, mas o vovô espera ver você. Reserve um tempo, depois eu venho te buscar.
Eduarda não continuou rejeitando, afinal, se não desse o braço a torcer, estaria desrespeitando o Sr. Adilson. Ela não era tão mesquinha a ponto de não comparecer a um banquete de negócios.
— Hum, tudo bem. — Eduarda, ao pegar novamente na colher de sopa, lembrou-se: — A propósito, como está a saúde do seu avô? Já melhorou um pouco?
Ao ouvir isso, Cícero sorriu. Ela ainda se importava com ele e com o avô. Ela o tinha no coração.
— Já não está em perigo como antes, mas ainda sofreu um grande baque. Agora só pode ficar de repouso, não é como era antes.
Eduarda também lamentou um pouco, expressando pena diante do declínio da vida.
— Quando eu tiver tempo, vou visitar o velhinho. — comentou, enquanto voltava a tomar sua sopa.
Percebendo que Eduarda parecia gostar da sopa à sua frente, Cícero aproveitou a chance para manter a conversa:
— Eu aprendi a fazer uma sopa nova recentemente. Da próxima vez que nós dois formos à Praia Dourada, eu mesmo faço para você provar.
O que Cícero não contou foi que havia aprendido a fazer aquela sopa especialmente para Eduarda.
Ele não tinha muita intimidade com a cozinha. Fez tudo ao mesmo tempo em que pedia ajuda ao chef e ia descobrindo sozinho; esbarrões ou queimaduras eram inevitáveis. Mas, só de pensar que era algo que Eduarda gostava, sentiu que valia a pena e encontrou motivação.
Ele realmente queria fazer algo por Eduarda que a deixasse feliz.
Da última vez, ele havia feito um caldo que fora recusado. Então, tentou se consolar dizendo a si mesmo que não podia ser que na próxima vez também fosse recusado. Mesmo se fosse, e na outra vez? Em algum momento, Eduarda haveria de lhe dar um sorriso. A vida era tão longa, ele ainda teria as suas oportunidades.
Eduarda continuou sem mostrar muito interesse nas coisas que ele dizia, e também não se deu ao trabalho de rebater.
Nesse exato momento, ouviram-se barulhos vindos da entrada da casa. Logo depois, a silhueta de Augusto Barbosa surgiu na porta.



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