O vazio é matéria, a matéria é vazio, deve buscar a purificação e longevidade... longevidade... longevidade.
Eduarda, encostada em sua cadeira de chefe, assistia com os olhos cravados nos balançares contínuos e negativos da cabeça de Pérola.
— Pérola! Ô, Pérola!
— O que foi?! E eu não estou pensando em homem nenhum!
Eduarda: — ... E eu nem falei que você estava pensando em algum homem.
Eduarda não conseguiu segurar a risada: — O que foi? Arrumou um homem? Conta os detalhes pra mim.
O rosto de Pérola ficou tão encarnado que parecia que ia sangrar: — Não tem nada, Eduarda, não fica fazendo piada com a minha cara, eu vou voltar pro trabalho.
Abraçada à sua pasta, Pérola disparou correndo.
Eduarda sorriu contente por ela. Bem na mesma hora, o telefone de Augusto tocou.
— Oi, irmão? Tem algo pra mim?
— A Pérola foi trabalhar hoje? — Augusto indagou. — Como ela está? Você não a provocou, né?
— Já provoquei, desculpe. — Eduarda forçou um tom cínico. — Vocês foram intensos, hein, ela veio aqui embrulhada da cabeça aos pés.
— Vou passar no estúdio daqui a pouco.
Eduarda: — Se o que você menos quer é deixá-la desconfortável, será que a sua presença inesperada lá não deixaria a garota ainda pior?
O cérebro de Augusto realmente funcionava em vias opostas da dela.
— Senti saudade, vou vê-la.
— Tudo bem, se quiser, pode vir.
Augusto disse e foi mesmo. De um jeito muito extravagante.
Na porta de entrada, Pérola acabou trocando olhares diretos com a figura de Augusto bloqueando a passagem como uma porta enorme.
Após se encararem por alguns momentos, Pérola disparou a cabeça nervosamente para trás. Quando notou que ninguém estava de olho na direção deles, ela começou a empurrar Augusto para fora.
Ao segurá-lo pela gravata, ela forçou o rosto dele para baixo.
— Eu não disse que não deveríamos nos encontrar de novo? O que significa isso, Sr. Barbosa?! — Pérola cuspiu as palavras e apontou para a fila de garçons fardados de terno preto atrás dele.
Augusto riu num tom grave, analisando a garotinha que havia tido a coragem de puxá-lo pela gola publicamente; a garotinha talvez não soubesse que, normalmente, as pessoas não ousavam sequer se aproximar dele, apenas abaixavam a cabeça e o seguiam.
A garotinha não tinha medo do perigo mesmo.
— Vim aqui buscar o meu status.
Os olhos de Pérola se arregalaram: — Que história é essa de status, não fale bobagem! Nossa relação de interesse já acabou.

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