Clara Bennett foi atingida por uma dor que nunca havia sentido antes. Era como se um buraco enorme tivesse sido rasgado dentro do seu peito, mas, estranhamente, ela nem conseguia chorar direito.
Ela apenas ficou ajoelhada ao lado da cama do hospital, apertando a mão da Sra. Lawson com tanta força que seus dedos ficaram pálidos, enquanto cena após cena dos momentos que viveram juntas continuava se repetindo em sua cabeça.
Todas aquelas lembranças calorosas tinham se transformado em espinhos afiados, cravando-se um após o outro direto em seu coração. Ela não tinha como colocar aquilo para fora, não tinha como respirar apesar da dor. Tudo o que podia fazer era aguentar.
Quando a tristeza desabou sobre ela até o limite, Clara soltou um soluço quebrado e escorregou até o canto junto à parede. Ficou encolhida ali no chão, entorpecida, sem nem sentir o frio subindo pelos azulejos.
Ela não fazia ideia de quanto tempo havia passado quando uma voz familiar soou perto de seu ouvido.
"Clara."
Ao ouvir aquilo, Clara ergueu a cabeça devagar. Uma figura alta estava ali, carregando aquela presença afiada e opressiva que ela conhecia bem demais.
"É você?"
No instante em que viu quem era, algo em seus olhos se apagou. Seu olhar estava vazio, como se toda a luz tivesse desaparecido. "A Sra. Lawson se foi..."
Sua voz saiu plana, sem nenhuma emoção, como se ela estivesse apenas constatando um fato, nada mais.
Ethan Mitchell olhou para as roupas finas dela, para o jeito como estava encolhida no canto, como alguém que o mundo inteiro havia esquecido, e suas sobrancelhas se franziram.
Era como se ele pudesse sentir o quanto ela estava destruída. Ele deu um passo à frente devagar, agachou-se diante dela e falou com a voz baixa e rouca. "Você tratava a Sra. Lawson como família. Para ela, você também era família. Ela não iria querer ver você assim."
Clara sentiu como se o buraco em seu coração tivesse sido escavado ainda mais fundo. Antes disso, ela realmente achava que qualquer coisa ligada a Ethan Mitchell sempre seria o mais importante. Mas agora, olhando para trás, tudo parecia ridiculamente risível, como uma piada cruel.
Se Ethan Mitchell não existisse, talvez nada dessa confusão toda, dessa tragédia absurda, tivesse acontecido para começo de conversa.
Ela já tinha perdido a família uma vez.
E agora estava sendo obrigada a passar por isso uma segunda vez.
Esse tipo de dor já havia afundado em seus ossos havia muito tempo, tão fundo que a deixava quase dormente.
Tudo o que podia fazer era respirar com força, uma inspiração trêmula após a outra, tentando aliviar o medo, o pânico, a dor que arranhava seu peito por dentro...
Ela viu com os próprios olhos Ethan Mitchell mandar pessoas levarem a Sra. Lawson e cuidarem de tudo o que veio depois.
Só quando a Sra. Lawson foi enviada para a funerária é que Clara finalmente encontrou dentro de si a menor migalha de força outra vez.
À noite, todos haviam ido embora, inclusive Ethan Mitchell. Só ela insistiu em ficar para manter vigília ali sozinha.
Mas, naquele momento, uma visitante indesejada apareceu.
Lily Bennett caminhou até Clara Bennett. Seu rosto parecia suave e delicado, e sua voz também era gentil. "Clara, eu sei que você está sofrendo agora, mas o que está feito está feito. Você precisa tentar aceitar."
As palavras soavam bonitas o bastante, mas havia um sorrisinho escondido em seus olhos, frio e presunçoso.
Clara pensou instantaneamente no que a enfermeira Elowen havia lhe contado.
O que tinha acontecido com a Sra. Lawson tinha que estar ligado a Lily Bennett de alguma forma. Não havia como ela estar limpa nessa história.
"Lily Bennett, na noite antes de a Sra. Lawson morrer, você foi ao hospital vê-la, não foi?"
Lily parou de repente. Por uma fração de segundo, o pânico passou por seu rosto. Desapareceu rápido, quase como uma ilusão, mas Clara ainda assim percebeu.
Clara continuou encarando-a, com a voz firme, mas afiada. "Você não tinha nenhum parentesco com a Sra. Lawson. Você nem a conhecia. Então por que foi lá?"
Lily se virou e olhou para Clara com uma expressão pura e inocente, como se não tivesse feito absolutamente nada de errado. "Mana, o que exatamente você está querendo dizer?"
"Quero saber que papel você teve nisso tudo."
"Mana, acho que você me entendeu muito mal." Lily parecia tão injustiçada que estava praticamente prestes a chorar. "Eu só soube do orfanato pelo Ethan Mitchell. Eu sabia que você cresceu lá e imaginei que a Sra. Lawson devia ser muito importante para você, então fui até lá em nome do Ethan para ver como ela estava."
"E, mais importante, eu morei um tempo no exterior antes e conheço alguns médicos realmente incríveis. Pensei que talvez pudesse ajudar. Eu só estava tentando fazer alguma coisa por você."
"Me ajudar?" Clara soltou uma risada baixa e gelada ao ouvir aquilo. "Depois de todas as jogadas sujas que você fez pelas minhas costas, você ainda tem coragem de ficar aqui dizendo que queria me ajudar? Por favor. Se pudesse, você provavelmente queria que eu desaparecesse da sua frente agora mesmo."
"Clara, eu sei que você não acredita em mim. Provavelmente também não acredita no Ethan e quer jogar tudo em cima de nós. Se você realmente acha que tivemos alguma coisa a ver com isso, então chame a polícia. Deixe que eles nos investiguem."
Clara soltou uma risada fria antes que pudesse se conter. A verdade era que, no segundo em que começou a ligar os pontos, ela já tinha chamado a polícia. Eles também tinham verificado as imagens das câmeras de segurança. Mas a vida era absurdamente irônica assim. As câmeras, por acaso, estavam quebradas. E, sem provas suficientes, a polícia se recusou a abrir um caso.
Então, agora, ouvir Lily falar com tanta confiança, mandando-a chamar a polícia, só fez Clara ter ainda mais certeza de que Lily estava totalmente envolvida em tudo aquilo.
O que Lily tinha dito a Ethan. Tudo pelo que a Sra. Lawson havia passado antes do acidente. As câmeras quebradas.
Tudo aquilo, pedaço por pedaço, parecia gritar a mesma coisa para ela—
Aquilo tinha sido obra de Lily Bennett, de propósito.
Comparada às famílias realmente poderosas, a família Bennett talvez não fosse grande coisa, no máximo uma peça pequena no jogo. Mas, comparada a Clara, que não tinha ninguém nem nada em que se apoiar, eles ainda eram um monstro que ela mal conseguia enfrentar.
Tentar encontrar provas sozinha era praticamente jogar no modo pesadelo. Difícil pra caramba. Mas, fosse como fosse, ela não desistiria. Precisava descobrir a verdade até o fim.
"Lily Bennett, antes disso, era tudo coisa pequena. Joguinhos bobos. Mas, desta vez, você passou dos limites. Uma vida se perdeu por sua causa."
"Aqui se faz, aqui se paga. Não importa o preço que eu tenha que pagar, vou garantir que você receba o castigo que merece!"
"Clara!"
Antes que Lily pudesse responder, o olhar afiado de Ethan a atingiu, frio o bastante para congelar o ar. "Você tem noção do que está dizendo?"
Aquele grito duro era um aviso, puro e simples. Mas, para Clara, as palavras dele foram como uma agulha cravada direto em seu peito.
"Claro que eu sei o que estou dizendo. Você pode me chamar de irracional se quiser, mas eu falo sério."
Enquanto dizia isso, um sorriso frio se espalhou pelos lábios de Clara.
Ela não queria ficar ali nem mais um segundo. Reunindo todas as forças que ainda lhe restavam, ela se afastou cambaleando.

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